quinta-feira, 18 de agosto de 2011

É possível um consumo consciente ?

                                               Maria Isabel Zanzotti de Oliveira .

            A Zara, renomada grife de origem espanhola, é um dos assuntos mais comentados do Twitter em razão  da divulgação  das investigações da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP), que encontraram trabalhadores em condições semelhantes à escravidão em São Paulo. Sendo que ,o  assunto está no topo dos Trending Topics brasileiros da rede social entre os não-patrocinados e chegou a figurar também entre os mais comentados do mundo.

        Deste deste fato , tenho lido alguns post de colegas apelando para o chamado “consumo consciente” , ou seja , consumir apenas marcas que respeitam os direitos humanos, ambientais e assim por diante.E frente a este tipo de denuncia ir depurando os itens e marcas que mais encaixe no estilo de vida de homens/mulheres ( de classe média)  politicamente corretos .Mas , será que é possível um consumo consciente no capitalismo ?

        O politicamente correto do consumo consciente e da responsabilidade social das empresas nasce nas décadas recentes , porém possuindo um caráter ideológico , já que pretende humanizar o capitalismo , porém sabemos que tal sistema de produção não tem nada de humano , afinal é um sistema baseado na alienação humana , ou seja , “na transformação de pessoas em coisas , e das coisas em pessoas”.E a coisificação do homem tem como finalidade o aumento do capital ,assim não importa se a empresa se diz politicamente correta ou não , sua finalidade ultima não é o bem-estar humano , mas o aumento do capital.

        A produção de valor no capitalismo acontece na produção de mercadorias , através da apropriação por parte do capital da mais-valia , ou seja , de uma parte dessa quantidade de valor produzido .Enfim , se o trabalhador produz 1000 calças por mês , ganha como salário o equivalente a 100 calças , e as outras 900 é apropriada como lucro por parte da empresa , e a  ambição burguesa é de cada vez mais mais-valia , que logicamente aumenta se o trabalhador trabalhar mais horas ou/e ganhar menos.Neste estado de coisas , não importa mais as pessoas , mas efetivamente as coisas .E , sendo assim , o capitalismo é formado pela contradição das classes , afinal uma se apropria e a outra é necessariamente explorado e sem uma regulação jurídica desta relação desigual e conflitante a exploração é máxima , desumana e de uma antagonismo exacerbado.Diante deste fato ocorre a luta histórica dos trabalhadores pela garantia de direitos , de uma relação de trabalho menos desumana , mas também a concessão das classes dominantes senhoras do “Estado de direto” das garantias trabalhistas , porque se não o fizessem a própria ânsia demasiada do capital provocaria um descontentamento social exacerbado frente aos antagonismos, colocando em risco o próprio capital.

        Mas, é logicamente dedutível que o capital não iria se submeter eternamente a este tipo de regulação , e no seu instinto animalesco de reproduzir sua tendência geral , ou seja , da extração de sempre mais mais-valia  , nas ultimas décadas assistimos uma restruturação do sistema baseado na “flexibilização do trabalho”.Enfim , as outrora grandes fábricas se transformaram nas empresas , grandes marcas , que possuem todos os artifícios possíveis para diminuir os custos de produção , ou seja , aumentar a mais-valia .Terceirização de atividades de manutenção , terceirização da própria produção , produção em lugares onde a mão de obra é mais barata e assim por diante .Enfim , uma precarização do trabalho .

      É neste contexto que encontramos escravidão em fabriquetas de costura em São Paulo , onde a terceirização da produção para fábrica menores significa esconder a não garantia de direitos de trabalhadores , sendo que justamente são recrutados neste trabalho desumano grupos sociais frágeis que podem ser facilmente coagidos como imigrantes e mulheres.A ameaça é simples , “boliviano se você não aceitar essas condições vou chamar os “federais” , e como você é ilegal e está faminto …”.

        O resultado é simples,muita das peças de roupa que nós ,a classe média feliz, adquirimos por aí possui essa origem nefasta , e não é somente a Zara que figura no rol das escravizadoras , mas a C&A , a Mariza e tantas outras empresas .Aliás , muitos produtos que consumimos e que necessita de trabalho manual intensivo pode ter tido este tipo de origem , incluindo cana de açúcar e IPods , que o diga os trabalhadores suicidas da FOXCCON.

       Portanto o consumo consciente é uma falácia no capitalismo , e os projetos de responsabilidade social , que inclusive a Zara os possui , são apenas projetos para “inglês ver” , assim como as primeiras leis de combate a escravidão no Brasil imperial.Talvez uma dia consumiremos conscientemente ,mas sob a égide do capital é impossível , pois são as coisas que nos consome.

            

Quadrinhos ideológicos

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