quarta-feira, 20 de julho de 2011

O negócio do michê.

 

 

Determinadas leituras são realmente complicadas para pobres mortais como eu , e essa resenha , enlouquecida confesso , é uma tentativa de leitura da dissertação de Nestor Perlongher , “o negócio do michê” , a partir do que eu dispunha em termos do corpo teórico de Deleuze e Guattari , ou seja , a noção de rizoma.

Rizoma é um texto de Deleuze e Guattari , sendo o primeiro filósofo e o segundo psicanalista , o texto é uma introdução ao “capitalismo e esquizofrenia II” .Capitalismo e esquizofrenia foi publicado em dois volumes : o anti-édipo e mil platôs .O livro é uma reflexo de um vendaval libertário de 1968 , neste momento tinhasse a impressão que a revolução aconteceria no ocidente brevemente .Se 68 não aconteceu uma revolução social ocorreu uma revolução dos costume , de quebra da disciplina.Deleuze chamará a nova fase que se iniciava de fase do controle.

Capitalismo e esquizofrenia vem de uma discussão que existia desde da decáda de 1930 , esta discussão tinha a ambição de articular Marx e Freud , pensar em conjunto a econômia política e a economia libidinal .Uma barrando a transformação na outra , por exemplo , se os operários votaram pelo III Reich nazista , foram contra o proprio interesse ( econômia política ) mas de acordo com o seu desejo(libido).

Esta questão da economia e desejo , capitalismo e esquizofrinia , foi retomada criticamente na década de 1960 , os livros de “Deleuze/Guattari” são frutos desta discussão .No livro I , o anti-édipo , se faz uma releitura da história do mundo a partir de três grupos :selvagens , barbáros ( sociedades despótas) e sociedades civilizadas afim de captar esta relação entre econômia política e desejo.

Rizoma é a introdução de “capitalismo e esquizofrenia” II , retomando muitos temas do livro primeiro ,mas com uma nova ênfase colocada atráves da discussão de temas articulados por Platôs ,(mil platos ) , que são , por sua vez , épocas e momentos históricos que emergem questões fundamentais .

Em primeiro lugar , podemos dizer que rizoma é uma questão de método , ou ainda , rizoma é uma questão de anti-método .É um método que entra pelo meio ,não pelo começo , um método que entra de modo transversal.Esta introdução rizomática é o texto chave para compreender o livro como um todo , ele é uma caixa de ferramenta , um manual , um anti-manual .O projeto do livro , então , não é trazer uma explicação ,mas oferecer implicações .

Logo no ínicio de rizoma a idéia de livro é colocada em questão ,existem livros que são de caracter explicativos seguindo uma lógica linear de raiz ( um livro clássico) ; e há um outro tipo de livro , de tipo rizoma , onde o leitor não tem como se reconhecer no livro ,nele não se retira apenas o chão do leitor mas o leitor em sim , o sujeito .Retira-se o sujeito , mas tambem se retira o autor , pois o “ eu” é um experimento coletivo de enunciações, nada mais individualismo inglês que o econômico e popular do que o “I”, Deleze/Guattari estão explicando e desfazendo-se da noção de indentidade .Num livro rizomático, então, não há sujeito e objeto pré-constituídos , deste modo , entra-se pelo meio , e quanto o leitor entra em contato com o livro ele é agenciado por referências que lhes são particulares .

“O agenciamento é o acoplamento de um conjunto de relações materiais de um regime de signos que lhes corresponde”´.É sinônimo de maquinação .É a maquinação material-semiótica , fruto da materialidade e tambem do sentido , de significado .O agenciamento é de ordem espistemológica , de mediação mente e mundo.

Pensar rizomaticamente é pensar em rede . A lógica clássica é a lógica da liniariedade, do troco de árvore , a lógica rizomática é a lógica heterodoxa.A lógica de arvore remete a origens , identidades substanciais, causualidades únicas, o rizoma , por outro lado, oferece um guia para pensar a heterogeneidade das relações .Para pensar em rede tem que se pensar rizomaticamente , as coisas se implicando multiplicamente , olhar uma rede acaba por nos oferecer uma visão mais alargada , vizualizar outras relações de agenciamentos heterogênos acontecendo, a lógica da arvore permite vizualizar apenas o único .

“A arvore linguistica á maneira de Chonsky começa ainda em um ponto S e procede por dicotomia .Num rizoma , ao contrário ,cada traço não remete necessariamente a um traço lingüístico , cadeias semióticas de toda a natureza são ai conectadas a modos de codificação muito diversos , cadeias biológicas ,políticas e econômicas e etc , colocando em jogo não só regimes de signos diferentes , mas tambem estatutos de estado de coisas (cadeia semiótica).”

O pensamento de Foucault tambem possui um pouco desse caracter de rizoma , através da idéia de microfísica do poder , de projetos de poder .A critica contemporânea da noção de indentidade tambem pode ser inserida na lógica rizomática

Em o “negócio do michê” o antropólogo Nestor Perlongher faz uma etnografia do modo como se opera essa prática em territórios que lhes são específicos na cidade de São Paulo, sendo que para isso se conecta ao ponto de vista teórico de Deleuze e Guattari ao pensar os múltiplos agenciamentos que entrecortam economia política e economia libidinal.Na minha leitura parti do pressuposto que ele utilizava também da perspectiva do rizoma , ao preferir pensar as redes e as territorialidades espaciais e de identidade contextuais que acompanham a dinâmica de seu objeto, rizomático , por definição, pois , em sua dissertação acompanha sujeitos imersos em contextos de multiplicidades e confusões de identidades no sentido essencialista desta, sendo que estes códigos simbólicos de classificação se correlacionavam com códigos sociais de estratificação , articulando economia política e libidinal , seja, do ponto de vista da classe social , gênero , idade e raça.

Segundo ele , no momento em que processa sua pesquisa , nos anos de 1980 , estava em plena ascensão e vigor político a assunção de uma identidade gay igualitarista , em contraposição a modelos que buscavam repor a lógica identitária heterrossexual , permitindo inclusive a negação da identidade gay ao assumir papéis de ativos e “machões” .Enfim,em relação a identidades gays do período havia duas percepções , segundo Peter Fry , uma igualitarista e política , e outra própria do mediterrâneo , modelo popular-hierárquico, em que se reproduzia produzindo uma heterrosexualidade intensificada de bichonas e machões .

O “michê” em si , pode ser definido como o garoto de programa , masculinizado , que se auto-defini heterossexual , porém negocia-se em relações mercantis homossexuais , e muitas das vezes , essa própria afirmação de heterrossexualidade que se torna o objeto de desejo e de valor no mercado .Na rua , portanto , na práxis , essas identidades , por vezes , se mostravam contextuais , e os sujeitos , dependendo do segmento ,no sentido que Evans-Pritchard descreveu o modo de organização política dos Nuer, operavam em chaves simbólicas diferenciadas , ou seja, dependendo dos grupos sociais os indivíduos arregimentavam determinadas linguagens .

Por outro lado , também se fez interessante ao etnógrafo , pensar em rizoma , portanto , nos múltiplos agenciamentos que objeto de pesquisa se inseria , pois tomando como ponto de partida o entendimento das conexões entre economia política e libidinal era necessário olhar as múltiplas facetas , rizomas , que estes estavam inseridos do ponto de vista da estratificação social , tais como relações de hierarquia de classe , raça , gênero e idade.

“Assim , em vez de considerar os sujeitos enquanto unidades totais ,ver-se-á , conforme esta perspectiva , que eles estariam fragmentados por diversas segmentariedades .Assim , haveria uma segmentariedade binária , da ordem do molar – que cinde os sujeitos segundo oposições do sexo (homem , mulher) , de idade (jovem , velho ) , de classe (burguês, proletário) etc. Simultaneamente ,outra ordem de segmentos –que é preferível chamar de fluxo – moleculares que fazem referência a desejo- considerado não como uma energia pulsional indiferenciada , mas como resultante “ de uma montagem elaborada , de um enginnering de altas interações : toda uma segmentariedade flexível que trata de energias moleculares (Deleuze e Guattari ,1980, pg 262)-sacodem disruptivamente o corpo social .Movimentos de desterritorialização e reterritoralização operarão complexas transduções entre estas diversidades de planos .(...).Neste ponto a orientação será menos de fixar nos pontos de reterritoralização e paralisia (as correntes identidades) , e mais a de se abrir aos pontos de fuga e desterritorialização , explorando as linhas de mutação e suas vissitudes”. Pg 53.

“Bichas , mariconas , gays ,bofês , michês e boys “, e infinidades de nomenclaturas circulavam pelas ruas paulista da qual etnografia se ocupou e as tipologias das interações que pareciam fortuitas e ao acaso pode se identificar o atravessamento por redes de signos codificados , dai a necessidade de uma descrição densa como metodologia adotada.Também do ponto de vista metodológico adotou-se o conceito de região moral de Robert Park , que faz referência a segregação em determinados espaços de determinados grupos que se agrupam justamente por gostos que lhes são particulares .Nestor observa que no caso paulistano “ a margem ( no sentido sociológico ) ,volta-se para o centro ( no sentido ecológico)”no que tange aos devires considerados socialmente marginais .Articula essa noção de região moral com a de gueto gay , deslocando esta ultima categoria , que criada em contexto americano não era totalmente descritivo da realidade brasileira . O conceito de Levine de Guetto gay descreve este como território de concentração institucional , cultural , isolamento social , concentração residência de homossexuais .No entanto , de acordo com Perlongher , essas características estavam mais ou menos presente em São Paulo , que se distinguia se guetto marcadamente por onde concentrava-se a tolerância das sexualidades desviantes, não apenas a homossexual. É uma noção de guetto que não se refere a territórios , mas as redes nas quais se processa a circulação ora homessexual ora do negócio do michê , mapeando assim , um código território .

O autor também se vale da noção de estrutura e anti-estrutura de Victor Turner a fim de descrever os elementos marginais que compõem a cena da marginalidade e a entrada na mesma , com suas novas codificações advindas , novas territorializações .image

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Nestor identifica nesta de rede de códigos classificatórios de desejo e mercado tensores classificatórios : classe, gênero , idade , cor ,sendo que há um deslocamento dos sujeitos pelas redes dos códigos , se configurando um complexo código território .Ocorrendo , deste modo , relações mercantis e de busca da satisfação do desejo sexual , mas também outras sociabilidades sustentadas por esta, uma nômade/marginal e outra sedentário e normal que coexistem .Segundo ele não há entre a norma e marginalidade uma oposição radical , mas uma zona de deriva , de liminiariedade , com relações de contigüidade e diferenciação relativa , uma hieperterritorialização fluente com a distribuição e negociação de espaços .É necessário , deste modo , ler os fluxos , as territorializações e reterritoalizações , lendo o desviante como viajante entre os pontos de ruptura e os pontos de sutura , analisar o social não apenas em momentos de estruturação social , mas também em suas fugas e desestruturações .

“Em linhas gerais , reconhecemos a um marxista quando diz que uma sociedade se contradiz ,que uma sociedade se defini por suas contradições, em particular as contradições de classe.Nós dizemos melhor ,que uma sociedade toda foge , e que uma sociedade se defini melhor por essas linhas de fuga que afetam as massas de qualquer natureza (...)Uma sociedade , mas também um agenciamento coletivo , se defini em primeiro lugar por suas máximas de desterritorialização , por seus fluxos de desterritorialização (Deleuze e Parnet ,1980 , pg 154).

O nomadismo é histórico na sociedade da exploração pelo capital , ocorrendo um disciplinamento na força de trabalho nômade do início da super-exploração da revolução industrial , bem como de seus corpos , restando uma população marginal que possui estratégias de nomadismos , que inibem a consolidação de um poder estável que os circunscrevam , sejam elas , mendigos , prostitutos e assim por diante .Porém não é um tipo de sociabilidade caótica , apesar de acéfala quando a estruturação de um pode estável , mas marcada por simbologias, códigos,utilizados estrategicamente , em termos de derivas ou de lucro mercantil .Seja o cliente , seja o michê atravessam do normal ao nômade operando , se inserindo , territorializando e reterritorializando entre os diversos códigos.

A procura de uma paquera Nestor chama de deriva , porém a perambulação não é exatamente ao acaso .Ocorrendo uma deriva horizontal , ou seja , pelo território físico mesmo, e uma deriva vertical ,ou deslocamentos existenciais nos envolvidos no tráfico . Uma deriva vertical quer seria devires, no sentido de Deleuze e Gattari , ou seja , do deslocamento , desterritorialização dos sujeitos das identidades institucionais rígidas para linhas de fuga da estrutura social configurando uma articulação entre o nível dos corpos e das enunciações , agenciamentos coletivos de enunciações , agenciamentos maquínico dos corpos .Nada mais do que se inserir estrategicamente nos códigos para auferir vantagens econômicas e de status social , como por exemplo , negando a homossexualidade , afirmando uma macheza caricata , desprezando ou cobrando mais de clientes velhos, preferindo relações de tio/sobrinho do que “morar com bicha” , e assim por diante .Do lado cliente, estes códigos operariam via status e estratificação , atração pela pobreza , pela eminência da violência , pela preferência da brancura etc , etc , etc , lembrando que muita das vezes o valor de troca é construindo valor através da sexualização da diferença de gênero , idade, classe , cor .]

“O michê é muito fechado , não pode ter uma abertura .Se for educado , sorridente , as bichas acham que ele é bicha.Ele deve se isolar .Tem que ser sempre macho .É escravizado pelo comportamento .Quanto mais masculino , melhor .Não pode conversar , nem brincar , senão não gostam dele .Deve ser cinza , carrancudo , bruto , malcriado – ou gozador , do tipo malandro .Se ele não for assim , a bicha não aceita .Ele não pode ser inimigo , senão amigo , explorador .Se homem não ofende , então ele é bicha”.

Enfim , como nesse mercado se articula-se códigos sociais que estabeleceria ,alguma vezes provisória e cínica , as identidades , articulando os modos de operação da sociedade como um todo , dos seus modos de hierarquização , controle e estratificação , com o desejo , ou seja , economia política e libidinal operando uma em relação a outra em uma complexa rede , que no caso estudado é dissidente em relação as sexualidades prescritas pela estrutura social.

Bibliografia .

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. 5v. São Paulo, Ed. 34, 1997 [1980].

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EVANS-PRITCHARD, E. E. Os Nuer, Coleções Estudos, 53, Perspectiva. 2007

FRY, Peter. Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil. In: Para inglês ver. Identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp.87-115.

LEVINE, Martin. Gay ghetto. In: LEVINE, M. (org.) Gay men: the sociology of male homosexuality. Nova York, Harper & Row, 1979.

PARK, Robert. A cidade: sugestões para investigação social no meio urbano [1916]. In: Velho, Otávio G. (org.) O fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Zahar, 1973.
PERLONGHER, Nestor. O negócio do michê. 2ªed. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2008.

Turner, Victor.O processo ritual .Pretrópolis,Vozes , 1974.

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