quarta-feira, 27 de julho de 2011

. תּוּלּאשׂ תּיּדּבּצּהּ Do “ultimo cabalista de Lisboa” ao holocausto.

 

Observações iniciais:

          Nos ultimos meses tenho estudado produções clássicas da antropologia para as provas que viram , e ainda não sei se farei todas , mas o que vale é a experiência e o prazer de estudar aquilo que gostamos , não é ? Em algumas leituras produzei resenhas , publiquei inclusive aqui uma resenha sobre o “negócio do michê’ em um post anterior , em outras leituras recuperei textos que havia produzido durante a graduação , sendo que o texto abaixo é um deles .Texto que gostei muito e que me proporcionou aplicar o conceito de sistema social de Edmund Leach , cunhado a partir dos “sistemas políticos da alta birmânia” .

        Por outro lado , recomendo tambem aos colegas a leitura do “ultimo cabalista de Lisboa” , que apesar de não ser tão afeita a literatura , na época que li me proporcionou momentos de emoção , sejam elas boas ou ruim .Por fim , recentemente lembrei desta reflexão sobre a comédia do horror assistindo o “train da la vie” , que faz comédia do contexto do holocausto , surpreendendo ao final pela sensibilidade a estratégias de superação , pelo menos mentalmente , do sofrimento .

http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2011/07/trem-da-vida-1998.html 

 

Do “ultimo cabalista de Lisboa” ao holocausto.

A comédia no drama.

“O ultimo cabalista de Lisboa”, romance escrito por Richard C.Zimler, narra a saga de um cabalista, Berequias Zarco, em busca de respostas acerca das misteriosas circunstâncias do assassinato de seu mestre cabalista e tio, Abraão Zarco. A narrativa se desenrola na Portugal do século XVI em meio um contexto real de perseguição, batismos forçados e matanças de judeus.

Os batismos forçados tiveram inicio em dezembro de 1949, devido a um acordo entre a coroa da Espanha e a coroa portuguesa. D. Fernando e D. Isabel, soberanos da Espanha, quatro anos antes haviam expulsado de seu país todos os Judeus que lá residiam, deste modo D.Manuel deveria fazer o mesmo que em troca receberia a mão da filha dos reis espanhóis. No entanto, os súditos judeus eram extremamente valiosos para o rei português, comerciantes e financiadores indispensáveis para Portugal, muitos deles eram “judeus da corte”, figuras responsáveis pelo financiamento e administração contábil das monarquias absolutistas em um momento onde a burguesia nascente não queria e não podia se prestar a tal serviço. Vários personagens do “cabalista” se encontram nesta posição, talvez como recurso estilístico para marcar sua posição ambígua alguns deles desconheciam sua origem judaica até o momento que a narrativa se inicia. A solução do dilema encontrado por D.Manuel foi o batismo forçado dos judeus, que ficaram conhecidos como cristãos novos, que foram proibidos de sair de Portugal. Muitos destes cristãos novos continuaram a praticar clandestinamente o judaísmo, a família de Berequias é uma delas. Deste modo, os judeus portugueses estavam em uma situação de estrema fragilidade, a despeito de sua importância para o Estado Português, não podendo fugir frente às irrupções populares e religiosas de ódio anti-semita, eram pássaros valiosos presos a uma gaiola onde gatos sanguinários estavam à espreita.

- A tua tia sempre teve jeito para ameaças - sussurrou-me Frei Carlos com um sorriso maldoso - Lembras-te do dia em que te levaram à força para te baptizarem na Sé? Lançou-lhes pragas em sete línguas diferentes... Hebreu, persa, árabe, português...

- Lembramos, lembramos - interrompi, erguendo a mão num gesto de desaprovação, tentando poupar-nos à evocação. Tarde de mais. Os olhos de tia Ester tinham-se tornado distantes e opacos, mergulhados numa paisagem interior. A sua mão deslizara sob o lenço carmesim e traçava o contorno da cicatriz cruciforme que lhe tinha sido imposta naquela amaldiçoada manhã do nosso baptismo forçado. Nessa ocasião, mais que nenhuma outra, tinha resistido aos beleguins mandados pelo rei para arrastarem os judeus até à Sé. Um dos guardas, querendo dá-la como exemplo, atirou-a ao chão e prendeu-lhe as mãos e os pés ao empedrado da Rua de São Pedro. Um frade dominicano empunhando um ferro incandescente tinha então gravado uma cruz na sua fronte, enquanto gritava, para que todos pudessem ouvir: «Eu te abençoo com o signo de Deus, Nosso Senhor.

A mim, por meu turno, as crianças cristãs cobriram-me de sangue de porco e de serrim durante o caminho da cerimónia do baptismo até minha casa. Mas não podiam adivinhar a dádiva que me fizeram: esta humilhação abrasadora mereceu-me o olhar misericordioso do Senhor e tive então a primeira das minhas visões.pg 17.

O enredo do “cabalista” gira em torno das andanças de Berequias em busca do assassino de seus tio.Assassinado em um local secreto onde se encontravam aspirantes e cabalistas, no mesmo dia em que um massacre de judeus foi perpretado pela população cristã lisboeta .Porém, Abraão Zarco não havia sido assassinado por ser judeu como tantos naquele fatídico dia, mas por ser um atravessador de livros hebraicos valiosos e perseguidos em Portugal.Morto em um local secreto , conhecido apenas por cabalistas , sendo que um livro ilustrado de Ester é levado pelo assassino sem destruir os demais ,como um cristão fanático supostamente faria , colocando assim toda a supeita nos iniciados cabalista e nos atravessadores de livros.

O estilo literário do “cabalista” transita entre o horror, com muito sangue, fogo e restos mortais espalhados pelas ruas de Lisboa, e entre a comedia, com personagens bizarros, estabelecendo diálogos e ações não mesmos bizarras. Fazendo um paralelo com o cinema, o “ultimo cabalista” é uma estranha mistura entre a comedia sobre o mundo medieval “as incríveis aventuras de Brancaleone” e uma aterrorizante e perturbadora película do holocausto. Portanto, uma das primeiras questões que se pode suscitar sobre livro é saber qual o lugar e a função ocupada pela comedia num cenário desolador e de horror flagrante como o da Lisboa de Berequias.

Uma primeira hipótese para utilização do recurso da comédia para descrever o horror é a de que talvez Zimler tenta-se mostrar com o recurso da comedia a boçalidade do povo na transição entre um mundo medieval ainda obscurantista e supersticioso para um mundo racionalista.

O dia do nosso primeiro seder da Páscoa ergueu-se fusco e seco, como todas as manhãs ultimamente. Há mais de onze semanas q[1]ue não recebíamos a benção da chuva. E também hoje não choveria.

A peste, essa, assediava-nos com calafrios os corpos e as almas já desde a segunda semana de Heshvan - há mais de onze semanas.Os médicos feitos à pressa de El-Rei D. Manuel acharam que o gado era o ideal para absorver as essêncías que pairavam no ar e a que atribuíam a epidemia e assim duas centenas de vacas entontecidas pelo calor foram deixadas à solta a vaguear pelas ruas.pg 12

O recurso a comedia no horror é tambem uma maneira de suavizar narrativas violentas , produzindo uma fuga de olhar para o leitor que enfrenta conjuntamente aos personagens deste tipo de história momentos de estrema tensão , medo e enjôo. “A vida é bella”[2], premiado filme italiano sobre o Holocausto, se utiliza do recurso da comedia no horror na perspectiva do interior da narrativa .Um pai com seu filho em um campo de concentração nazista faz com que o “pequeno” acredite ser tudo aquilo uma grande brincadeira , um jogo , ludibriando a criança a fim de que ela não sofresse com a perspectiva de uma morte eminente.Assim o filme é ao mesmo tempo brutal e doce .No entanto , o filme não foi recebido como uma unanimidade fora e dentro da comunidade judaica , sendo criticado em primeiro lugar por tratar as vitimas do holocausto de maneira desrespeitosa ao fazer comedia no horror , e em segundo lugar por ter transmitido uma imagem suave do genocídio o que poderia fazer alguem acreditar que os campos de concentração foram realidades violentas insignificantes .

Mas fazer comedia no horror é cotidianizar a dor dos personagens , os humanizado , tranzendo-os para proximo de nós .O pai assim poderia ser qualquer pai , judeu ou não , enfim, nos mesmos poderiamos ser o pai tentando evitar o sofrimento de nosso filho.Nesta perspectiva a comedia no horror produz identificação do leitor/telespectador com o personagem.Pois há determinadas piadas que somente ousamos fazer em ambientes familires .O mesmo pode ser dito de Berequias , narrador em primeira pessoa , nos coloca em contato com seu corpo , sua familia e sua vizinhança de maneira cômica , o que possivelmente aproxima o leitor deste herói.

No entanto , talvez a história de Berequias seja não apenas uma comedia no horror mas tambem uma comedia do horror .Melhor dizendo , a narrativa em primeira pessoa , mostra um personagem vivendo situações de violência brutal e que somente tais absurdos poderiam ser feitas por pessoas igualmentes absurdas , em uma realidade absurda , um contexto virado de ponta cabeça.Assim sendo , Berequias somente consegue interpretar seus perseguidores em termos cômicos , não havendo racionalidade onde há violência , apenas ignorância supersticiosa , boçalidade.

O guarda abre o portão. Nos degraus da frontaria, um criado atarracado, de cabelos oleosos, acobreados e uma testa suada cheia de borbulhas corre para mim. Usa perneiras azuis demasiado apertadas para as suas nádegas carnudas e o gibão de brocado verde está rasgado na gola. Toma-me pelo braço, como que a defender-me do perigo. De perto, apercebo-me de que o seu pescoço gordo tem umas arranhadelas abertas e vermelhentas. Estará atacado de sarna? Cheira a metal, como uma velha moeda. Talvez ande a tomar pílulas de antímónio, um tratamento receitado a torto e a direito pelos doutores cristãos feitos à pressa.

- Para dentro... Para dentro! - sussurra, agitando vivamente as mãos. Introduz-me numa sala de espera abobadada, pintada com frescos de deuses e deusas rosados num estilo florentino, depois observa-me de cima a baixo COM um ar extasiado, e olhos maliciosos. Num murmúrio conspirativo, pergunta-me

- Deus é realmente um boi?

- O quê?

- O deus dos judeus é um boi? - Forma uns cornos sobre a cabeça com as mãos, fala como se eu não compreendesse o português. - Sabe?... O macho da vaca... O marido da vaca... Boi.

Já tinha ouvido falar de mestres de Coimbra que acreditavam que tínhamos caudas , de bispos de Braga que clamavam que usávamos sangue fresco de crianças cristãs nos nossos rituais da Páscoa, de doutores do Porto que diziam que tínhamos um odor idêntico ao da carne podre de baleia, o foetor judaiCus. Mas a crença de que rezávamos a um boi era uma calúnia nova. Só algumas semanas depois compreendi a origem de tal desacerto: o criado tinha confundido a palavra «touro» com «Tora».

Por vezes Berequias narra situações dramáticas , de violência desmetida , num tom cômico .O que nos faz chegar a conclusão de que para ele não apenas os personagens que perpetram a violência são cômicos , mas a propria violência em si .

Um vago murmúrio como de uma multidão numa arena distante. Estranho: as casas de portadas cerradas, as lojas fechadas, como se fosse já noite. Em meu redor as ruas estavam todas desertas, cobertas pelas sombras do entardecer. Fui avançando, sentindo os pés na calçada. Ao passar as muralhas de granito do castelo mourisco, dois moços jornaleiros correram para mim brandindo foices. Ia a correr, mas apercebi-me que seria inútil. Um deles encostou a lâmina curva ao meu pescoço. Na mão segurava pelos cabelos a cabeça decapitada de uma mulher, gotejante de sangue. Não a reconheci. - És marrano? - perguntou, para saber se eu era um judeu convertido. O seu olho direito de um branco leitoso, esbugalhado, reflectia o meu medo com um brilho maldoso. - Porque desta vez vamos dar cabo de todos os marranos!

O meu coração batia desesperadamente numa prece pela vida. Abanei a cabeça e estendi-lhe a minha sacola.

Olha!

Passou-a ao seu comparsa barbudo, que espreitando para dentro e farejando-a, rosnou «Chouriços!» e devolveu-ma.

Enquanto eu agradecia a Deus, o cegueta baixou a foice e perguntou: «Isso é vinho?» Acenei que sim e ele tirou-mo das mãos. A minha respiração tornouse ansiosa e hesitante.

- Aquele fumo... onde é?

- Uma pira sagrada no Rossio. Os dominicanos querem fazer chegar até Deus um sinal com as chamas da carne dos judeus.

O temor pelo destino do meu povo a apertar-me as entranhas impediu-me de fazer mais perguntas. Os dois homens beberam até fartar e depois fecharam o batoque. Eu não podia desviar os olhos da cabeça da mulher. Os olhos não pareciam sem vida. Que via neles então? O alheamento deste mundo? Ao pegar no barril que me estendiam, percorreu-me o peito um calafrio como se provocado por um espírito fugitivo. O barbudo levantou a cabeça decapitada, lambendo-lhe as faces como se saboreasse o suor de uma amante. Puxando a corda que lhe segurava as calças, expôs as suas imundas partes sem circuncisão. Com os seus dedos cheios de porcaria mantinha aberta a boca enegrecida da mulher, segurando-a à altura da cintura. E começou a fazer algo de inenarrável. O outro observava-o, ao mesmo tempo que comprimia contra si a mão espalmada. Eu não ousava fechar os olhos, mas virei a cara. Quando cessaram os seus grunhidos, voltou a apertar as calças e exclamou:

- Vê lá por onde andas. Há quem confunda as pessoas com judeus! Pg33,34

Se deslocar da perspectiva de Berequias tambem é válido , se pensarmos no ponto de vista da população cristã de Lisboa assolada pela peste e faminta com uma unica resposta para suas fatalidades dada pelo clero , a de que os judeus é que eram culpados .No entanto , estavam limitados em agir a sua maneira , superticiosa e anti-semita , pelo seu soberano que como já havia dito necessitava dos judeus para sobreviência ecônomica do Estado Português .A população de Lisboa estava assim em uma estado de histeria generalizada , incluindo nesta população um rei divido , judeus presos e assustados numa gaiola com as feras e por fim , um bando de feras desorientadas .Uma bomba relógio !Gente que em um estado de crise como este foram impelidos a montar uma fogueira de judeus com fumo e depois recolher os dentes que restaram para ter sorte.A loucura , as contradições entre as partes envolvidos , e um dilema que não poderia ser resolvido simplismente com um batismo forçado provocava um estado de drama social que somente poderia ser expresso pela comédia , uma comédia do horror.

Quando Farid e eu chegamos ao Rossio, as cinzas e lascas de lenha das fogueiras onde queimaram os judeus rodopiam em torno a nós. A princípio parece ser o único vestígio que resta da montanha dos pecados cristãos e eu penso: «Os nossos mortos moram agora apenas na nossa memória.» Farid no entanto repara que não é bem assim. “Olha!” - e aponta com o pé uma fenda entre as pedras. Dentes humanos. Deve haver milhares deles espalhados por todo o largo, enfiados nas rachas da calçada. Apercebo-me então que por toda a parte se vêem mulheres e crianças ajoelhados a apanhar estes restos, como se fosse a época das colheitas. Sem dúvida devem querer guardá-los como talismãs contra a peste.

Para a comedia , o drama , o desequilibrio não estar presente nesta sociedade lisboeta ,descrita no cabalista , cada um deveria ocupar o seus lugar devido dentro da sociedade , alias dentro da estrutural social , do conjunto de normas e pressupostos do qual cada grupo fazia parte .D.Manuel como rei cristão da pensinsula hibérica deveria expulsar os judeus de seu reino , como seus semelhantes , os soberanos espanhóis o fizeram.O mesmo poderia se dito da população de Lisboa , no caso seu dever era explusar e matar judeus tais como seus vizinhos espanhóis o fizeram , no entanto ,o rei está constantemente negando-lhes esta oportunidade com o uso da força estatal para o controle da população.Os judeus , como portadores de uma identidade judaica deveria não negar sua crença , não deveriam se tornar cristãos novos , ou como cristão novos deveriam abandonar as praticas judaicas , aliás o narrador do “cabalista” nos informa no inicio do livro que muitos judeus preferiram matar a si mesmo e aos seus filhos do que se tornarem cristão novos.Os marranos deveriam fugir para um reino que os quizesse na qual estivessem seguros , porem as fronteiras foram fechadas para eles segundo o interesse do rei , deste modo eles ficaram engaiolados .Todos repensam e jogam com seus papéis em decorrência da conjuntura histórica e economica , judeus virão cristão-novos e falam hebraico em suas comunidades , D.Manuel de anti-semita transita para papel de filo-semita e vice-versa , e no fim , os carrascos cristãos perseguidores se tornam uma população acuada no dia seguinte frente a guarda real.

Não seria assim os personagens do cabalista e lisboetas ,do final do seculo XV e do inicio do seculo XVI , proximos do modelo teorico de sistemas sociais de Edmund Leach ? As negociações linguisticas dos kachins que buscavam angarinhar ganhos politicos trocando dialeto como se troca de roupa , não estaria proximo da instabilidade social , dramática , de cristão-novos , cristão-velhos e um rei inconstante ?

Shans e Kachins na alta Birmânia , e cristão-novos e velhos em Portugual .

Como já explicitado o subtitulo anterior , a analise de Edmund Leach sobre os Kachin e os Shans da alta Birmãnia possuem pontos de semelhança com a situação social narrada no “ultimo cabalista de Lisboa”.O papel da instabilidade na analise da antropologia politica e a estrutura e a práxis em processo dialogíco de ação dos individuos são pontos de encontro entre os Birmaneses e os portugueses do século XVI.Primeiramente a analise de Leach será apresentado , posteriormente estabeleceremos conexões dela com o universo social do cabalista.

Edmund Leach ao analisar “os sistemas politicos da alta Birmânia” apresenta um modelo alternativo das ditas sociedades primitivas dos seus comtemporaneos, dialongo e estabelencendo um ponto de vista critico com autores como Radcliff-Brown ,Malinoski, Durkheim e assim por diante .Tais autores possuiam uma visão segundo o qual as sociedades primitivas tendem ao equilibrio, tudo estando relacionado com tudo , neste tipo de modelo não há espaço para o acaso e o inesperado não é possivel.Deste modo era possivel a comparação entre as sociedades , comparando estruturas sociais se encontraria semelhanças, diferenças, funções estruturais das relações sociais. Radcliff-Brown , por exemplo , afirma que as sociedades tendem a se reproduzir , uma estrutura rigida onde há pouco espaço para se pensar a mundança social .

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Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg3

Leach critica esta perspectiva pois segundo ele não há nada nas coisas que tenha que ter sentido necessariamente , a realidade é caótica , está ao acaso .Muito destas concepções de equilibrio é por um lado a reprodução do discurso perfeccionista nativo , e por outro lado são derivados de pressupostos hobbesianos de ordem e equilibrio proprios do olhar da sociedade do antropologo.

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Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg71.

Para o autor existe duas dimensões conceituais para analises das sociedades e dos aspectos politicos das mesmas, cultura, estrutura social, de um lado e os sistemas sociais de outro lado.Uma das dimensões é a cultural ,sistemas de crenças, regras , representações simbolicas e rituais.A estrutura social deste modo pretende ordenar a sociedade com um conjunto de regras.Porem as sociedades , e as suas respectivas estruturas sociais estão se relacionando constantemente ,dialogando entre si e entre o passado , presente e pratica , ou seja a história .E esta relação com a pratica cotidiana , onde individuos tentam manipular as estruturas em seus favor , produzem os sistemas sociais , dinamicos e instáveis , portanto, espaços privilegiados de mundaça social .Entendendo sociedade aqui como uma unidade politica autônoma.

A partir disto podemos afirmar que os sistemas sociais apenas se tornam inteligiveis quando são colocados em relação a outros sistemas sociais.Não se compara inutilmente modelos estruturais rigidos a lá Radcliff Brow , mas sistemas sociais dinâmicos e coerentes com a prática social .Leach critica assim a noção de tribo , pois tal conceito trata os supostos grupos sociais enquanto unidade , rigida , congelada e trancada em si mesmo .Não colocar a dimensão histórica e relacional das sociedades e entre as sociedades nas analises antropologicas acaba deixando de lado ,por um erro metodologico , a capacidade de tranformação e dinamismos dos grupos .Cogelando teoricamente um grupo estudado no tempo e espaço.Assim sendo , será que as fronteiras sociais realmente existem ?Ou são elas ficções sociológicas?

O que coloca em questão a noção de ideal , estrutura social , contraposta a norma real , ou seja , aquela realmente acolhida na práxis , ação e representação devem ser pensadas para melhor compreensão da realidade social da qual se pretende descrever , enfim , estabelecendo parâmetros de distinção do que os nativos falam e o que os nativos fazem .A idealização que o nativo faz de si pode encobertar o que eles fazem na pratica cotidiana .A monogamia , por exemplo , em nossa sociedade apesar de ser um ideal há a previsão da trangressão ,na pratica a subversão da monogamia acontece .

(...)

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Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg71,72

Enfim , as pessoas manipulam a estrutura social de acordo com seus interesses particulares.O que aproxima o modelo de Leach do de Marshall Sahlins ao pensar a ação particular e interessada de cada um frente as estruturas sociais , eventualmente produzindo mudanças .Momento este que a história , a ação, enfrenta a estrutura social.

Assim , no instável se encontra a chave para questão da mudança social .Gluckman se aproxima desta visão , pois segundo ele em situações de eventos criticos , dramáticos , as mundanças sociais são perceptíveis e a analise social ganha densidade , o que aproxima estes dois autores de Victor Tuner com a noção de drama social.Assim sendo , a analise chega proximo da experiência social realmente vivida pelos individuos , como a estrutura social funciona na pratica social , a estrutura da conjuntura de sahlins ou a práxis confrontando as estruturas como em Bourdieu .

O que é então a estrutura social na pratica no que tange a politica ?São conjuntos de idéias que os individuos ou grupos possuem acerca do poder , e ao manipularem as contradições destas idéias os individuos ou grupos tentam favorecer os seus proprios interesses . clip_image010

Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg72.

Deste modo Leach pensa os individuos como portadores de agência , diferente dos estruturalistas como RadCliff-Brown que a atrelando a estrutura ao individuo por intermédio de funções especificas o descrevia como totalmente previsível.No plano idealizado a linguagem ritual fala acerca da ordem social , porem a pratica a subverte na exploração utilitarista da contradição .A cultura para Leach é uma especie de acaso , uma roupagem que se veste para atuar socialmente.E ao divincular a cultura , que é o acaso , dos sistemas sociais a analise de Leach permite recuperar as comunicações entre os grupos, Kachin e Shan , por exemplo.

A linguagem assim como componente cultural , ou seja, roupagem , acaso , não é um componente identitário universal , os Kachins são exemplares .A lingua acaba se tornando neste contexto uma roupagem , trocando-se de lingua como se troca de roupa .Falar a mesma lingua pode significar amizade , enquanto que falar uma diferente pode ser interpretada como hostilidade .O uso da lingua fica a mercê das estratégias de cada individuo .Na comunidade da alta Birmania que Leach estudou seis tipos de linguas eram utilizadas circusntancialmente a fim de que cada individuo pudesse ganhar vantagens politicas e econômicas a partir desta postura.

Retornemos agora ao “cabalista” , melhor dizendo os conflitos entre judeus e portugueses na Lisboa do seculo XVI.No primeiro bloco desta analise, “comédia e drama” , foi apresentado as contradições da sociedade lisboeta , e de seu Estado , no periodo em que a narrativa do ultimo cabalista se passa.Lá chegamos a conclusão que aquela sociedade estava enloquecida , pois os papéis esperados de cada grupo estava deslocado em decorrência das circustâncias , provocando estabilidades onde facilmente o horror deslocava-se para a comédia para quem a quisesse descrever , como Zimler o fez.Não é o horror que era engraçado , este era apenas um produto , as contradições que tornavam o horror engraçado.

A estrutura social , se assim quizermos chamar , demandava um reino cristão onde os judeus necessariamente deveriam ser perseguidos.Isto se passava na mente dos suditos que eram anti-semitas e dos reis vizinhos , igualmente anti-semita .Porem os Estados Absolutistas, em especial Portugual inaugurador que se consolidou ainda no seculo XVI, necessitaram do financiamento e da habilidade contábil nas burocracias do elemento judeu , está é a figura do Judeu da corte.Faziam parte tambem da burguesia , eram comerciantes ricos , mercadores e assim por diante .Uns ganhavam tamanho prestígio que angarivam até mesmo titulos de nobreza.

Frente ao pedido do vizinho e o clamor da população o soberano tenta manipular a situação , a estrutura , criando assim uma nova dinamica social com os batismos forçados .A estrutura encontra a história ,e a práxis produz um elemento novo , cristão-velhos e cristão novos , um rei anti-semita ao mesmo tempo que filo-semita.

Estas novas roupagens são como novas linguagens,um individuo passava de judeu , a cristão-novo dependo da situação , as vezes , as caracteristicas permitiam aos individuos negar sua origem judaica e se passar por um cristão velho .Na história de Berequias um dos iniciados cabalista eram tambem frei católica , o frei Carlos , uma rica nobreza era católica nas aparências a ponto de niguem desconfiar de sua origem judaica , aliás este é um ponto fundamental para a resolução do mistério da morte de Abraão .O rei , por sua vez, podia de acordo com os ganhos possíveis ser um anti-semita numa dada situação e um filo-semita quando isto lhe beneficiava.O povo em geral , a mercê da força do soberano , não tinha muita agência , mas ao desviar do olhar do rei de ovelhinhas obedientes a um rei absoluto se tranformavam em feras violentas .

Havia assim sistemas sociais/politicos de negociação de linguagens culturais para ganhos individuais e de grupo politicos e economicos a despeito das normas e ideais esperados de cada grupo.O ideal judeu era ir para “cova dos leões”,ou para a fornalha de mil graus ao invés de negar sua origem judaica , mas pela sua propria segurança fisica , bom andamento dos negócios e frente a impossibilidade de fugir , era melhor se esconder entre as várias faces que o batismo o oferecia .D.Manuel , do mesmo modo ,idealmente ele deveria ser semelhante ao rei espanhol anti-semita, e leal ao povo português anti-semita assustado , dar respaldos aos discursos da igreja , mas não podia se desfazer de súditos fundamentais para os negócios do Estado , frente a isto manipulou a estrutura oferencendo o batismo numa mão e uma parceria em negócios na outra, ficando bem politicamente e economicamente.

Porem os sistemas rei/reino espanhol , rei/judeus , rei/povo e igreja colocava as contradições cotidiamente para as pessoas envolvidas , uma estabilidade tamanha que alguem poderia afirma ter sido um dos fatores da confecção das fogueiras no Rossio.No entanto ,o contrário tambem pode ser dito, a falta de capacidade de barganha oferecido a um dos sistemas sociais , aquele que colocava rei em um polo e e a igreja cada vez mais distituida de poder e o povo em outro polo, provocou uma reação extremamente violenta.Mas conclusivamente podemos dizer que este Estado absolutista é na realidade composta não apenas por uma diversidade religiosa conflituosa mas tambem por uma diversidade de relações situacionais com o poder. Não podemos defini-lo em uma unica formula do tipo os “nuer são assim”, “o reino português é assado” , mas para se obter conclusões relevantes há a necessidade de analisar os grupos em relação uns com os outros e as contingências históricas que produzem estes esquemas situacionais com o poder.

Do anti-semitismo no “cabalista” ao anti-semitismo do holocausto.

No contexto na qual se passa a história de Berequias as negociações e barganhas eram possivéis , dependia apenas da capacidade e da influência de cada grupo ou individuo .Durante o “seder” da pascóa , as prima de Berequias e seu marido foram presos pelas autoridades portuguesas , Abraão logo mandou avisar para que os judeus nobres intercedessem por sua filha .

Como viemos a saber, minha prima Reza e todos os outros convivas da sua seder secreta tinham sido presos na noite anterior e levados para a cadeia da cidade. Alguém os terá denunciado. E meu tio? Será que o presenciou através de alguma janela mística ou terá simplesmente pressentido que alguma coisa de terrível se passava? Vendo-me ler o recado essa manhã, minha mãe anunciou-me:

- Os tios foram à procura dos nobres cristãos-novos que servem na corte. Estão esperançados que algum deles possa dar uma ajuda.pg 31.

As coletividades judaicas , da época medieval ao inicio do século XX, reagiram frente as hostilidades através de sistemas sociais de negociação e barganha , se utilizarmos os termos de Leach , no entanto , não almejaram de maneira sistemática constituir uma estrutura politica que lhes fosse própria , jogavam assim no interior das estruturas alheias .Estabelecendo , portanto , uma relação de isolamento da politica , segundo Hannah Arendt uma indiferença judaica as “condições e eventos do mundo exterior”.Na narrativa do “ultimo cabalista de Lisboa” nos deparamos com esta configuração , sendo o “judeu da corte” e o gueto as chaves para compreender esta questão .

A mercê da hostilidade cristã os judeus foram confinados em guetos em diversas partes da Europa. A palavra gueto é de origem italiana, Borgheto, que significa Burgo, bairro, tendo equivalentes locais como a judiaria ibérica. Deste modo, o gueto segregava da sociedade em geral os grupos judeus, mas promovia a solidariedade e a identidade judaica internamente, eram assim visíveis como diferentes para si e para os outros. O gueto judaico, a judiaria, era uma forma de apartar fisicamente da população aquele que mantinham uma relação de neutralidade e afastamento do Estado. Não configurando assim uma “sociedade contra o Estado” a lá Pierre Clastes, pois população judaica nada fazia para se opor a Estado, apenas era uma coletividade sem Estado vivendo e barganhando proteção dentro de um Estado alheio. Era uma situação confortável para os judeus ricos que adquiriam privilégios na ordem societária do ancién regime justamente pelo status de “apartados”, mas também era confortável ao Estado absolutista ao obter um financiamento desinteressado quanto aos rumos da política, ou seja, sem vinculações comprometidas com as monarquias inimigas. No entanto com o advento do Estado-nação o gueto se tornou algo insuportável, “um Estado dentro do Estado”, e a emancipação e a assimilação foram respostas a este incômodo.

O judeus como financiadores e habéis contabilistas eram utéis as nascentes monarquias absolutistas européias , eram o unico grupo disposto a financiar o Estado, e eram imparciais por ser um grupo a parte ,ou seja , um grupo que alienava dos enventos da politica . Os judeus, justamente por sua não identificação com uma unidade política, eram procurados como financiadores e em outras vezes como diplomatas justamente por sua imparcialidade de um lado e riqueza do outro no momento do aparecimento e da consolidação do Estado absolutista .A burguesia nascente não se interessava e não podia financiar as monarquias absolutistas em seus projetos de fortalecimento da maquina estatal e de unificação , não havia outro grupo com aval moral e social para se tornar financiadores e contabilistas deste ambiciosos reinos alem dos judeus .Deste modo , o “judeu da corte” se torna uma importante ferramenta para o rei , assim se explica o fato de D.Manuel estar hesitante em expulsar os judeus de Portugal . E , por outro lado, este poderio econômico era muita das vezes moeda de troca para a proteção das populações judias.

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Arendt, Hannah. As origens do totalitarismo. Companhia das letras : São Paulo, 1998.pg76.

Hannah Arendt identifica este tipo de comportamento para com a política como um erro fatal cometido pelas lideranças judaicas durante o genocídio de judeus durante o nazismo. Pois o tipo de anti-semitismo enfrentado já não era mais o mesmo, e o regime de terror não permitia sistemas sociais de negociação pacífica. Não há, conseqüentemente, uma continuidade entre o anti-semitismo como ódio religioso medieval aos judeus do “cabalista” e o anti-semitismo como ideologia leiga no século XIX , porque as conseqüências para os dois fenômenos foram totalmente diversas ,apesar da reação ter sido a mesma.

Arednt critica a posição dos historiadores que colocam uma continuidade entre os anti-semitismos históricos. Atrás deste posicionamento talvez tenha uma ponto de vista ideológico, a de que os judeus foram sempre perseguidos por ser o povo escolhido, portanto, são superiores aos gentios, afinal ao contrário destes sempre pregaram a tolerância e a igualdade. Esta teoria dos judeus como “eterno bode expiatório” pode ser também uma poderosa justificação para os “carrascos” que desta maneira podem naturalizar o ódio aos judeus se isentando da culpa. Por outro lado a teoria do “eterno bode expiatório” não leva em conta a participação dos próprios judeus na história, que como qualquer grupo, tiveram algum papel nos fatos que levaram aos acontecimentos. Tendo, deste modo, o seu papel nos eventos específicos que levaram ao holocausto.

Mas qual a especificidade do anti-semitismo moderno que levou ao holocausto? O que aconteceu?Por que aconteceu?Como foi possível?Qual seria a origem deste anti-semitismo justamente em um mundo em que os judeus estavam sendo incluídos na sociedade européia através da assimilação e emancipação, se assemelhando a qualquer cidadão? Quais seriam as características deste anti-semitismo, que emergia num momento onde a riqueza dos judeus era insignificante para os propósitos do poder, onde os judeus se afastavam do mesmo?

O imperialismo é central para compreensão da emergência do anti-semitismo moderno, de acordo com Hannah Arendt A burguesia européia se atrelava cada vez mais ao poder neste tipo de Estado que supostamente defendia diretamente seus interesses, o Estado imperialista. Para os fins do Estado nesta nova configuração política o dinheiro judeu não era mais necessário, alias era insignificante. O anti-semitismo ganhou força neste período de perda de influência econômica judaica para com as instâncias de poder.

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Arendt ,Hannah .As origens do totalitarismo .Companhia das letras : São Paulo, 1998.pg24.

O dinheiro sem propósito não estaria na base do anti-semitismo moderno? Segundo Hannah Arednt , os homens obedecem e toleram o poder por um lado e odeiam aqueles que possuem riqueza mais que estão destituídos de poder é apenas porque supostamente há alguma utilidade no poder .O poder deve produzir , para o bem ou para o mal , ordem e trabalho .Se um grupo , apesar de detentor de riqueza , se isola da política , se isola dos outros homens , são assim considerados parasitas e revoltantes tal como a nobreza foi considerada no decorrer das revoluções burguesas. Portanto, a tese do dinheiro judeu desraigado da política como fator da explosão anti-semita é válida. Deste modo, o imperialismo é uma das raízes do anti-semitismo moderno.

O terror como mecanismo de controle das massas também é uma das hipóteses correntes para a emergência do anti-semitismo moderno, pois o terror se utiliza sistematicamente de identificações arbitrárias para promover o medo generalizado, assim qualquer um a qualquer momento pode se tornar vitima, não havendo um critério de culpabilidade para a condenação, aliás, a vitima inocente é alvo, sendo que a pessoa não é presa por ser culpada mais apenas por se judeu, por exemplo. Porém, esta explicação é parcialmente correta, no sentido de que para o terror existir ele tem que estabelecer ascender ao poder, e para tanto ele necessita de uma ideologia que se espalhe no corpo social dando bases e legitimidade para sua ascensão. Compreendendo esta lógica, de acordo com Hannah Arendt, para que se entenda o fenômeno do anti-semitismo moderno não basta desmistificar os “protocolos dos sábios de Sião”, mas explicar o porquê de uma farsa tão evidente ter se tornado uma crença generalizada .

O caso Dreifus também é paradigmático para compreensão do anti-semitismo moderno e da política de extermínio decorrente. No contexto da perda da Alsácia Lorena para os alemães na guerra franco-prussiana, o general francês e judeu Dreifus foi acusado de espionagem em favor do inimigo. A sociedade francesa se dividiu em torno da polemica da condenação ou da absolvição do militar. Emile Zolá, por exemplo, escreveu o famoso artigo “eu acuso” defendendo a inocência de Dreifus e acusando a sociedade francesa de anti-semita. Uma das respostas favoráveis a acusação que ganhou visibilidade foi a de que “melhor seria que ele fosse inocente , pois assim sofreria mais , indicando uma nova interpretação da questão da condenação jurídica que marcaria os acontecimentos vindouros de execução de judeus , a da perseguição da vitima inocente .

Além do imperialismo, da ideologia do racismo, da idéia de perseguição a vitima inocente como pratica de terror, outro aspecto foi necessário para a formação do anti-semitismo moderno que levou ao nazismo, a construção daquilo que Hannah Arendt chamou de “ralé”. A “ralé” foi uma aliança trans-classe entre remanescentes da aristocracia, burgueses e proletários, grupos que estão estruturalmente em contradição, mas que se unem em torno de uma ideologia e da demarcação de um inimigo comum para fins de acobertamento das contradições que os coloca em confronto entre si.

Frente a este quadro, uma pergunta se coloca, por que a resistência ao extermínio foi tímida, tanto por parte das coletividades judaicas quanto pelas localidades ocupadas pelos nazistas?

A assimilação e a emancipação marcaram o período anterior as grandes guerras. A emancipação, de caráter jurídico, derrubou as leis que segregavam os judeus enquanto cidadãos no interior do Estado, a assimilação, por sua vez, foi uma processo de inserção dos judeus no universo gentio que sistematicamente secularizavam seu modo de vida. Segundo Arendt, se a resistência ao holocausto foi possível em alguns lugares é porque era uma aposta política possível. A resistência ou não das localidades ocupadas a política de extermínio se deveu ao grau de identificação das populações nativas para com aqueles que estavam sendo apontados como judeus, decorrentes em grande medida dos diferentes processos de emancipação e assimilação.

Quanto às coletividades judaicas sua posição de afastamento do universo da política aceitando passivamente a reinvenção do gueto se mostrou uma posição desastrosa. A resposta tradicional de afastamento e de barganha por intermédio da liderança não era mais possível frente a um Estado de terror que não mais necessitava de um financiador, pois já tinha a burguesia, mas sim de um inimigo para ser sistematicamente eliminado. Assim, os judeus também participaram da constituição daquilo que seria o holocausto, afinal frente ao crescimento da tensão anti-semita não reagiram em termo políticos, aceitando e tentando negociar pacificamente lei após lei anti-semita que era imposta, ou seja, aceitando passivamente a reinvenção do gueto.

Essa conclusão nos permite voltar à “comedia no horror” do “ultimo cabalista de Lisboa” e da “vida é bela”, afinal a negação da comédia pra descrição dos contextos pode ser sintomática da negação da participação na história como sujeito ativo. Já foi dito que a comédia cotidianiza os personagens, os humaniza, os torna qualquer um de nós a mercê das peripécias da vida. Berequias nos coloca em contato com seu corpo, suas praticas, sua vizinhança, sua família de maneira cômica e assim nos familiarizamos com ele, pois como já havia sido pontuado há certas piadas que só fazemos para os nossos familiares. Os judeus nesta linha de interpretação seriam como qualquer grupo historicamente posto respondendo as contingências da história e produzindo história. A comédia retira a idéia de exclusividade, a comédia desmitifica o mito do povo escolhido para ser eternamente perseguido justamente por ser bom. A idéia da eterna vitima, da vitima por si só, do “eterno bode expiatório” provavelmente obriga o nosso imaginário a cultuar a dor como única descrição e ação possível e permitida ao holocausto, o que se fossemos interpretar nos termos de Hannah Arendt nega a idéia de ação e resistência como possibilidade histórica. Não que a dor não tenha sido profundamente dolorosa e a memória da tragédia não nos assuste fortemente, mas falar compulsivamente da dor é uma espécie de martirologia que coloca os sofredores da “Shoah” não como humanos, mas como heróis desencarnados da história. Quando o pai judeu, em “a vida é bella” age em termos da comédia está resistindo, na esfera individual, de maneira criativa e inesperada ao holocausto. Não age coletivamente, ou seja, a necessária para aqueles contextos, se pensarmos nas conclusões de Arendt, mas a metáfora da ação presente no filme já é o suficiente para se fazer a analogia.

Assim sendo, o cômico significa humanidade e ação, descreve um sujeito comum que faz história. Sendo que a ação deve necessariamente estar presente na relação com o poder, se furtar da ação é uma aposta política desastrosa, esta é a lição que Hannah Arednt nos deixa ao explicar as origens do totalitarismo.

Quanto à questão do horror e da comedia, do ponto de vista estilístico literário todas as colocações postas aqui são apenas um recurso para construção e argumentação do artigo, não se baseando em teorias literárias, na intenção real dos autores do livro e do filme e sem a ambição de criar uma teoria literária do horror-comédia .

Bibliografia .

Arendt ,Hannah .As origens do totalitarismo .Companhia das letras : São Paulo, 1998.

Richard C. Zimler. O ultimo cabalista de Lisboa. Editora: Livros Quetzal , 2007.

Leach,Edmund R.- Sistemas políticos da Alta Birmânia.EDUSP.São Paulo ,1995.


[1] Mário Monicelli. L´ARMATA BRANCALEONE .Itália.1966.

[2]Roberto Benigni. La Vita Bella,Itália.1997

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