domingo, 5 de dezembro de 2010

Escola e sociedade do controle :”competências e habilidades em questão”

Da escola dos conteúdos a escola das habilidades cognitivas

Por Maria Isabel Zanzotti de Oliveira.

Deleuze em post-scriptum da sociedade de controle aponta a transição da sociedade disciplinar, analisada por Foucault , para a sociedade do controle nas sociedades ocidentais , incluindo transformações nos modos de operação nas diversas instituições de confinamento disciplinares : escola , hospital e etc. Nesse trabalho levantarei a hipótese da crise do sistema disciplinar , e a emergência de preocupações características da sociedade pós-industrial na escola no que diz respeito ao modo como a transmissão do conhecimento é pensada em cada modelo.No modelo disciplinar fazia sentido olhar o aluno armazenador de conhecimento , pois “gravar” , “decorar”, cumpre a função de disciplinamento e nesta chave aquilo que chamamos de conteúdo da informação é o elemento central.Por outro , levantando a hipótese que no modelo do controle o aluno é visto como “processador” da informação , e as “habilidades e competências” , ou seja ,o desenvolvimento de processos cognitivos assume centralidade , afinal nesse novo universo social o conteúdo não mais é monopólio da escola (professor) podendo ser acessado facilmente em decorrência do desenvolvimento dos sistemas de informação ,sendo assim, neste contexto a ambição é a qualidade do “ensino” . Por fim , não apenas o conteúdo é de acesso aberto , necessitando apenas de processadores capazes de interpretá-los , que determina esta postura dos sistemas escolares ( currículos , avaliação , métodos de ensino-aprendizagem) , mas também porque a sociedade pós industrial necessita de um trabalhador de novo tipo, preparado cognitivamente para produzir valor através da mente .Enfim , o trabalhador do velho esquema necessitava do disciplinamento , em especial dos corpos , agora é demandado no contexto do controle trabalhadores cognitivamente preparados , em grande medida para atuar como o componente humano nos sistemas homens-máquinas .O que vem a calhar a um geração do hipertexto , já acostumada com as lógicas de rede e dos sistemas homens-máquinas através da familiaridade com os jogos, computadores , celulares e toda sorte de objetos eletrônicos , segundo Jack Goody ocorre transformações na organização social e nos “modos de pensar” com o advento de novos modos de comunicação. Se de um lado esse tipo de currículo centrado nas competências e habilidades busca desenvolver melhores trabalhadores , também é uma tentativa desesperada de motivação de uma geração em que celulares/pc’s os transportam virtualmente para fora dos muros da escola mesmo estando dentro.

Para analisar o caso brasileiro usarei dois exemplos que se conectam aos parâmetros curriculares nacionais e a LDB que orientam os currículos em torno das “competências e habilidades”: o Enem e a nova política curricular do Estado de São Paulo.

Sistemas homens-máquinas e o trabalhador jogador: valorização da ferramenta “mente”.

Lev Manovich, tomando por base a analise de Walter Benjamim que afirma que a experiência sensorial da modernidade é um continuo entre o espaço de fora e dentro do Trabalho ,se questiona quais são os mecanismos e as implicações desta continuidade , constatando que o exemplo mais contemporâneo dessa continuidade é investimento de companhias desde da década de 1990 na conversão de simuladores de treinamento militar (trabalho) em games (lazer). O crescimento da cultura visual contemporânea é permeada por múltiplos displays interativos que fornecem informações gráficas , sendo os jogos e os simuladores apenas alguns dos exemplos. E, segundo Manovich, a existência desses jogos outrora simuladores apontam para uma característica fundamental da sociedade pós-industrial , na qual trabalhador e jogador muitas das vezes se confunde e o homem funciona como parte do sistema homem-máquina sendo que a visão a mediadora por excelência dessa relação.O sistema homem-máquina pode ser descrito como aquele em que um dos operador é um ser humano que interage com as máquinas , fazendo algum tipo de intervenção de tempos em tempos diante de informações fornecidas pela mesmas , em grande medida por meio de displays .Podemos citar como exemplo clássico o radar que ao fornecer uma dada informação impulsiona algum tipo de ação de seu operador.

Para Walter Benjamim o regime de trabalho da percepção na modernidade é marcado por um constante processo de estímulo presente tanto no trabalho quanto fora do ambiente do mesmo ,ou seja, o olho é treinado tanto para o ritmo da produção industrial na fábrica quanto para navegar na complexo universo visual que fica para além dos portões da fábrica.A experiência moderna , segundo Benjamim , está a mercê de uma ritmo periódico de choques de percepção (perceptual shocks) , experiência esta compartilhada por um pedestre obedecendo os comandos de um sinal de trânsito, o trabalhador na linha de produção e o telespectador de um filme.Manovich acrescenta que esta experiência como também compartilhada pelo meio do trabalho/lazer cibernético.Neste universo cibernético o trabalhador ora é impulsionado a ação frente a informação fornecida pela máquina ora fica a espera de que algo aconteça.

Manovich , então , coloca que para esta sociedade pós-industrial da experiência da percepção dos sistemas homens-máquinas há uma maciço investimento nas chamadas habilidades cognitivas , que a difere da sociedade industrial que centrava na “força física” como elemento fundamental na produção de valor .Este processo de transição pode ser verificado na emergência de novos paradigmas nas ciências que se ocupam da busca pela melhor eficiência do trabalho , indo da sociedade industrial preocupada com a eficiência corporal para a sociedade pós-industrial preocupada com a eficiência da mente,o instrumento de trabalho mais característico de nossos tempos.

No que tange a sociedade industrial Manovich lembra que até os conceitos das ciências naturais da época estavam mediadas por essa visão do trabalho como despendido de força , ou nos termos da termodinâmica , despendido de energia .Cita dois paradigmas da produção cientifica que se ocupava da eficiência do trabalho , a ciência do trabalho européia e o toylorismo norte-americano .A primeira estudava as condições fisiológicas ideais para o ganho de eficiência do trabalhador , o segundo transformava definitivamente o homem em máquina de força não se importando com as condições de bem-estar do trabalhador em decorrência da abundância de mão de obra americana fruto das políticas migratórias da época.Taylor propôs uma racionalização da produção em que a maximização da eficiência do trabalho é aumentada com a eliminação de movimentos desnecessários pelo trabalhador que aumentaria os necessários .O taylorismo , deste modo , separava a responsabilidade da execução do trabalho do planejamento do mesmo , separando definitivamente mente e corpo, sendo o behaviorismo o correspondente a este paradigma na área da psicologia . Tratando a mente como motor , o behaviorismo afirmava que o comportamento humano é um sistema estímulo-resposta que, sendo assim , pode ser controlado por meio do condicionamento.

O paradigma behaviorista começa a ceder espaço a partir da década de 1950 para a psicologia cognitiva mais preocupada com as funções mentais da percepção, atenção , compreensão, textual , memória e resolução de problemas .A idéia de foco na aprendizagem por meio de habilidades e competências é herdeira direta das preocupações da psicologia cognitiva .De acordo com Manovich este transição de paradigmas é o marcador da transição da sociedade industrial ( taylorismo , ciência européia do trabalho , psicotécnicas) para a pós-industrial (psicologia cognitiva , inteligência artificial e engenharia cognitiva ).A ciência cognitiva está para a automação da produção assim como o taylorismo estava para industrialização.

Jerome Bruner , um dos pioneiros da ciência cognitiva ,chegou inclusive a afirmar em 1984 que “it seem plain to me now that the cognitive revolution was a response to the technological demands of post industrial revolution ... you cannot conceive of managing a complex world of information without a workable concept of mind”.O aparecimento do trabalhador mental , onde sua força de trabalho reside no processamento de informações , se deve ao fato de que a automação não substituiu por completo o elemento humano , afinal o trabalho humano continuou necessário operando nos sistemas homem-máquinas como a parte que assiste aos displays , analisa informações , opera controles e assim por diante. As funções cognitivas de percepção , atenção , memória e resolução de problemas são vitais a este tipo de trabalhador .

A psicologia experimental também é um exemplo dessa transição de paradigma , nascida na primeira guerra mundial ganhou cada vez mais força a partir da segunda Guerra , sendo que em ambas ela havia sido arregimentada para o treinamento de pilotos , controladores de vôo etc , pois o desenvolvimento de máquinas cada vez mais sofisticadas demandavam operadores à altura.Hoje uma série de especialidades se ocupam da pesquisa do relacionamento eficiente entre homem e máquina além da psicologia experimental que é o exemplo paradigmático , podemos citar dentre elas a biotecnologia , a biomecânica ,a engenharia humana e assim por diante.Enfim,a psicologia experimental saiu em busca do conhecimento da eficiência na cognição humana , estudando dentre outras coisas a habilidade em distinguir cores a diferentes luminosidades e distâncias , o menor espectro de luz que pode ser identificado pelo olho humano e etc.Todo esse conhecimento foi utilizado na construção de displays adequados ao relacionamento homem máquina .

Cientistas criam laboratório de ergonomia avançado para aprimorar a relação homem/máquina em centrais nucleares

Porém uma nova questão , de acordo com Manovich é colocada : qual é o limite da capacidade cognitiva humana de leitura de informação frente a velocidade da oferta desta pelas máquinas.Este é o problema do mínimo tempo em microsegundos necessários a um operador em detectar um sinal , interpretá-lo e se necessário pressionar o botão.Da questão dos limites do corpo da era industrial é recolocada na questão dos limites da mente na era pós-industrial.Abrindo espaço para ambição de criação e a efetiva criação de operadores não-humanos que resolveria a questão.

Por fim, Manovich nos lembra que o paralelo do operador de radar dos anos 50 e 60 na atualidade é o usuário de computador , sendo que as mesmas preocupações de pesquisa da adaptação e de conciliação dos sistemas homem-máquina se aplicam aos sistemas homem-computador.E os jogos , apesar da sua imediata vinculação com o lazer , também traz a experiência perceptiva do trabalho ao educar para os sistemas de estímulo informacional e resposta humana característico dos sistemas homem máquina .Enfim , o trabalho da percepção de acordo com Manovich é o fundamento do trabalhador jogador , um exemplo paradigmático disso são os jogos outrora simuladores militares que se convertem em plataformas de diversão.

Habilidades e competências contextualizadas na sociedade pós-industrial

As constatações de Manovich da valorização pós-moderna da cognição podem ser correlacionadas com os currículos escolares contemporâneos que centram a questão da aprendizagem no desenvolvimento de habilidades e competências. Afinal, quem é este aluno que faz o Enem, que é a clientela imaginada do novo sistema de ensino da secretaria de educação do Estado de São Paulo? Em grande medida este aluno é visto como o trabalhador do futuro imediato, da sociedade pós industrial altamente automatizada; do deslocamento crescente do trabalho humano para setor de serviços ,para as indústrias culturais e criativas e da inovação tecnológica e científica ; do desenvolvimento das tecnologias da informação e de comunicação , bem como o crescimento do acesso a mesma : e por fim , do aparecimento de novos modelos de gestão e controle nas esferas produtiva e comercial .Este aluno é o futuro cientista , engenheiro, técnico , operador dos sistemas homens-máquinas , operador nos sistemas homem-computador/rede , trabalhador-jogador e assim por diante.

“A sociedade do século 21 é cada vez mais caracterizada pelo uso intensivo do conhecimento, seja para trabalhar, conviver, exercer a cidadania seja para cuidar do ambiente em que se vive. Essa sociedade, produto da revolução tecnológica que se acelerou na segunda metade do século passado e dos processos políticos que re-desenharam as relações mundiais, já está gerando um novo tipo de desigualdade ou exclusão, ligada ao uso das tecnologias de comunicação que hoje mediam o acesso ao conhecimento e aos bens culturais. Na sociedade de hoje, são indesejáveis tanto a exclusão pela falta de acesso a bens materiais quanto a exclusão pela falta de acesso ao conhecimento e aos bens culturais (...)Em um mundo no qual o conhecimento é usado de forma intensiva, o diferencial será marcado pela qualidade da educação recebida. A qualidade do convívio, assim como dos co- conhecimentos e das competências constituídas na vida escolar, será o fator determinante para a participação do indivíduo em seu próprio grupo social e para que tome parte de processos de crítica e renovação”.

Proposta curricular São Paulo.pg 4 e 5

Justamente por esse acesso “ilimitado” a informação e a constante aceleração da aceleração tecnológica na qual estes alunos estão sujeitos , a escola toma por responsabilidade o desenvolvimento de uma nova estratégia de inserção dos indivíduos nesta sociedade.E tendo por base que os conteúdos sobre o mundo nem é mais monopólio da escola ( pode ser estudado em casa por meio da rede mundial) , e o domínio destes conteúdos não mais inserem de modo satisfatório os indivíduos , já que estes são cada vez mais provisórios frente ao desenvolvimento tecnológico e científico , a escola tende agora a oferecer o desenvolvimento das habilidades cognitivas necessárias ao processamento dessa enxurrada de informações.

“Todos sabem, mas sempre vale a pena repetir: vivemos o período de maior mudança na história da humanidade. A massa de conhecimento e tecnologia dobra a cada ano. Se não tomarmos cuidado, em um ano ficamos 50% desatualizados; em dois anos, 75% em três anos, 83%. Como devemos preparar os jovens para um futuro tão diferente? É evidente que a essência, os fundamentos devem estar presentes – e de forma muito consistente. Mas outras competências são necessárias, além de novos conhecimentos. Há, por exemplo, a informação de que esses jovens viverão mais de 100 anos e, assim, sua vida terá de ser dotada de extrema flexibilidade. Será exceção da exceção um estudante de Direito Internacional permanecer nessa especialidade pelos próximos oitenta anos. Deverá ficar claro para todos, também, que a educação continuada fará parte intrínseca de toda a vida. O amanhã, diferentemente de hoje, será tema comum. Dessa maneira, resiliência, vocação para a pesquisa, obsessão pelo estudo, curiosidade pelo novo, cultura geral, visão estratégica e capacidade de antecipar-se ao futuro têm de fazer parte do leque de aprendizado a ser incutido no modelo mental de cada um. Peter Bernstein nos ensinou: “Eu sei que não vou acertar o futuro; aliás, eu sei que vou errar sobre o futuro. Mas eu não quero ser eliminado pelo futuro”. Esse pensamento, que pode parecer um paradoxo, deve ser compreendido e incorporado por todos. No plano prático, o Ministério da Educação deveria carimbar em todos os diplomas: “O Ministério da Educação adverte: produto perecível”. Como nunca, o pensamento de Paulo Freire está vivo, com sua Pedagogia da Autonomia”. VIANNA, Marco Aurélio Ferreira. Professor para o futuro. In: Superdicas para ensinar a aprender, São Paulo: Saraiva, 2008, p. 149-150.

A escola, neste contexto, assume como papel fundamental o desenvolvimento das habilidades cognitivas da percepção, atenção, memória e resolução de problemas, que com vimos antes é objeto das ciências da eficiência do trabalho da mente, o que forneceria aos alunos autonomia num mundo da informação ilimitada de posse da competência da pesquisa e interpretação de dados, por exemplo. Porém a outra moeda dessa mudança de papel, de fonte de saberes para fonte de produção em massa de interpretadores de informação, também denuncia a crise da escola até então existente, esta busca também uma nova inserção nesta transição de seu papel disciplinar para a sociedade do controle.

Antes, esta como instituição de confinamento para além da transmissão de conhecimento possuía a função do disciplinamento dos corpos , com uma arquitetura panóptica (distribuição das fileiras , por exemplo) engendra micro-poderes tal como na cadeia ou nos hospícios , com exercícios cotidianos de ordem e disciplina , inclusive aqueles de decorar conteúdos , tabelas e tabuadas , estimulando mais o uso da força corporal no empreendimento da “decoreba” do que a aprendizagem e interpretação adequada deste conteúdo , cobrados por meio da famosa “prova”.A expectativa da sanção por meio das classificações , das notas de prova , da repetência disciplinava.Por fim , este conteúdo estava dividido em disciplinas do conhecimento, separadas por muralhas intransponíveis , e não se preocupava com a inserção desse conteúdo no cotidiano do aluno, pois importante era armazenar não importando os fins práticos , era armazenar para disciplinar. Foucault define disciplina como métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade (Foucault, Michel,1999.pg. 118)... porque define um certo modo de investimento político e detalhado do corpo, uma nova ‘microfísica’ do poder (idem, p. 120).Entendendo que a noção de poder de Foucault é relativa as práticas e saberes que se conectam aos mais diversos projetos de poder,este investimento na posse de conteúdos e na classificação do aluno por meio da prova pode ser conectado , dentre outros conexões possíveis, com o projeto do sistema produtivo. A decoreba, o disciplinamento foi mais adequando a formação de massas de trabalhadores para a sociedade industrial taylorista .Neste momento a idéia era modelar , disciplinar , enquadrar num padrão de normalidade.

Foucault

Esquema de postura corporal da escola francesa de Port-Mahon do século 19: triunfo da disciplina. Foto: Reprodução Ed. Vozes

Hoje a sanção está em crise , as notas são substituídas por conceitos para não hierarquizar e produzir micro-poderes , as “repetências” são quase inexistentes , as punições as mais diversas cada vez mais raras e proibidas ,os padrões de normalidade são questionados, fala-se até na crise de autoridade do professor .Aliás , o professor é cada vez mais vigiado , por meio de uma centena de testes de qualidade da aprendizagem ,ganhando bônus ou os perdendo .A qualidade medida em testagens as mais diversas é o que se busca : saresp’s , enen’s , prova Brasil , etc ,etc ,etc.

O enem , por sua vez , é um desses únicos testes na qual os ganhos e perdas recaem sobre o aluno pois é um caminho de acesso ao ensino superior.Nele se mede as famosas habilidades e competências em exercícios quase intuitivos, sem barreiras das disciplinas do modelo antigo por meio da interdisciplinaridade e da aplicação ao cotidiano do aluno, O enem é “fácil”, ou pelo menos era, porque ele cumpre a função de testar a posse ou não da habilidades cognitivas necessárias para que o indivíduo possa com elas interpretar a enxurrada de informações que lhe é oferecido ,com a autonomia na posse das competências e habilidades pode rapidamente aprender a ler novas informações em tabelas , gráficos , usar novos softwares, novas máquinas ,flexibilizar-se com múltiplos trabalhos ao longo da vida, enfim inserir-se no mundo produtivo sem muitas dores de cabeça.

A escola na sociedade do controle assume novas formatações. Deleuze, no artigo post-scriptum da sociedade do controle , se propõe a examinar a lógica de funcionamento das sociedades do controle em comparação a sociedades disciplinares , sendo que a sociedade do controle apesar da aparente libertação dos indivíduos dos esquemas disciplinares de poder possui sistema de controle ainda mais sutis .Segundo o filósofo a empresa em contraposição a fábrica é exemplar nesse sistema , pois o eixo econômico da sociedade desloca-se da produção para a circulação , o sistema fechado da fábrica substitui o sistema aberto da empresa.A escola, instituição disciplinar , é progressivamente substituída por empreendimentos de formação permanente , no nosso caso a busca incessante do desenvolvimento de habilidades que conferem autonomia e plasticidade aos alunos , e por fim, o controle contínuo (testes de qualidade do ensino) substitui o exame típico das instituições disciplinares.

“ Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas os controles são uma modulação, como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro. Isto se vê claramente na questão dos salários: a fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios mas a empresa se esforça mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos.(...).A fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resistência; mas a empresa introduz o tempo todo uma rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo. O princípio modulador do "salário por mérito" tenta a própria Educação nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido de entregar a escola à empresa.”.Gilles,Deleuze.Post-scriptum da sociedade do controle.

Este controle contínuo se expressa por meio de uma profusão de dados estatísticos, de dados sobre alunos e professores, de cifras.O fim do poder da “prova” é substituído pelos grandes exames ( saresp , prova Brasil , enem , etc) , que através de sistemas de bonificações a professores e unidades escolares estabelecem mecanismos de controle.Segundo Deleuze, “a linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se "dividuais", divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou "bancos". É o dinheiro que talvez melhor exprima a distinção entre as duas sociedades, visto que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro - que servia de medida padrão -, ao passo que o controle remete a trocas flutuantes, modulações que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda”.Por fim, a característica básica dessa sociedade e oferecer a ilusão de uma maior autonomia , mas isso não signifique que nela não haja mecanismos de controle.

“Por exemplo , hoje não preciso ir a agência bancária , pois controlo minha conta corrente por telefone (...) via internet, pareço por isso ter uma autonomia muito maior. Porém, a facilidade do acesso informatizado permite aos governos- e mesmo aos próprios bancos- que eu seja vigiado muito mais de perto e , o que é pior, na maioria da vezes sem ao menos suspeitar disso!Na medida em que o controle escapa das instituições e é feito fora delas , ele se torna mais tênue, mais fluido , mas mesmo por isso mais poderoso , uma vez que se infiltra melhor e mais sorrateiramente por todas as frestas”. Gallo , Silvio.Deleuze e a educação.Belo Horizonte : Autêntica, 2008.

Em conclusão, a hipótese levantada neste trabalho é que a centralidade das “habilidades e competências” possui suas conexões com as características da sociedade atual , bem como seu sistema produtivo , a hipótese de Manovich da centralidade das habilidades da percepção na sociedade pós-industrial que necessita de operadores humanos para os sistemas homens máquinas se conecta a nossa hipótese. Mas também uma sociedade que desloca a produção de valor da fábrica para a empresa ( valor imaterial) , da profusão de informações , da ciência e tecnologia acelerando-se necessita de indivíduos que tenham uma relação flexível com o conhecimento, “autônoma” , daí a necessidade da escola oferecer ferramentas para a formação continuada , ensinando a base da arquitetura da obtenção de qualquer informação: “as habilidades e competências”.Assim sendo , há uma obsessão pela “qualidade” da aprendizagem , instaurando-se mecanismos de controle contínuo , enem’s e saresp’s da vida, ambos focados na aprendizagem de “competências e habilidades”.

Por fim , vale citar como é definido os conceitos de habilidades e competências adotados pela LDB e pelos PCN’s operacionalizados pelas propostas curriculares dos Estados da federação , pelo Enem e outros sistemas de avaliação estaduais ou nacionais.Cesar Coll defini as habilidades como conhecimento procedimentais , ou seja , os que dizem respeito ao saber fazer ,por outro lado os conteúdos conceituais/factuais são relativos ao que se deve saber( conteúdo processado ) (Coll,Cesar,1997).Qualquer habilidade implica uma ação física ou mental do indivíduo aplicada num determinado contexto , sendo exemplos de habilidade identificar , relacionar , correlacionar , aplicar , comparar e assim por diante. As competências , por sua vez, se define pela capacidade desenvolvida no indivíduos para resolução de situações-problema , sendo que as diversas competências demandam um série de habilidades.Porém não há uma noção unívoca de habilidade , muita das vezes habilidade é interpretada na chave do conteúdo mesmo, como no caso do currículo do Estado de São Paulo..No Enem , por exemplo , é cobrado 5 competências que correlacionam-se com 21 habilidades:

Competências : I- Dominar linguagens;II- compreender fenômenos;III- enfrentar situações-problema;IV- construir argumentações; V- elaborar propostas de intervenção solidária. Habilidades :1- Compreender e utilizar variáveis;2- compreender e utilizar gráficos;3- analisar dados estatísticos;4- inter-relacionar linguagens;5- contextualizar arte e literatura;6- compreender as variantes lingüísticas;7- compreender a geração e o uso de energia;8- compreender a utilização dos recursos naturais;9- compreender a água e sua importância;10- compreender as escalas de tempo;11- compreender a diversidade da vida;12- utilizar indicadores sociais;13- compreender a importância da biodiversidade;14- conhecer as formas geométricas;15- utilizar noções de probabilidade;16- compreender as causas e conseqüências da poluição ambiental;17- entender processos e implicações da produção de energia;18- valorizar a diversidade cultural;19- compreender diferentes pontos de vista;20- contextualizar processos históricos;21- compreender dados históricos e geográficos.

 

caderno do aluno da nova política curricular do Estado de São Paulo.

Bibliografia

Manovich, Lev .The Labor of perception. http://www.manovich.net/TEXT/labor.html

Deleuze, Gilles .Post-scriptum sobre a sociedade do controle. http://www.dossie_deleuze.blogger.com.br/

Foucault, Michel.Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1999.

VIANNA, Marco Aurélio Ferreira. Professor para o futuro. In: Superdicas para ensinar a aprender, São Paulo: Saraiva, 2008, p. 149-150.

COLL, César. Psicologia e Currículo: uma aproximação psicopedagógica à elaboração do currículo escolar. São Paulo: Ática, 1997.

Gallo , Silvio.Deleuze e a educação.Belo Horizonte : Autêntica, 2008.

Rafael Alves da Silva,Pedro Peixoto Ferreira. Considerações acerca do trabalho imaterial e da produção de valor no capitalismo contemporâneo, 2009.

Laymert Garcia dos Santos,Pedro Peixoto Ferreira. A regra do Jogo, desejo, servidão e cotrole.

Goody, Jack .A domesticação do pensamento selvagem.Lisboa :Presença,1988.

Observação:

Acabo de escrever este artigo e navegando pela web descubro que Bill Gates está investindo uma fortuna em pesquisas que visam a criação de um sistema para melhorar a qualidade do ensino americano .Tal sistema inclui a vigilância por meio de câmeras da performance de professores , a aplicação de uma série de testes que verificaram periodicamente a perda ou ganho de performances desses professores no que diz respeito a aprendizagem dos alunos , bem como oferecer bonificações aos professores com melhores resultados , dentre outras medidas .Ou seja , investimento em um amplo sistema de controle , com arsenais típico de um panóptico (câmeras) , com testes de qualidade e bonificação.

Teacher Ratings Get New Look, Pushed by a Rich Watcher

Video Eye Aimed at Teachers in 7 School Systems.

Panóptico: cadeia idealizado por Bentham e usado por Foucault como exemplo para explicar o dispositivo disciplinar.

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