sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pedagogia neutra?

 

“Além de um ato de conhecimento , a educação também é um ato político .É por isso que não há pedagogia neutra”.

      

        Ao colocar essa frase na lousa um dia desses e comentar sobre o ponto de vista pedagógico de Paulo Freire  percebi nos olhos de alguns alunos um certo brilho ,e isso proporcionou alguns momentos de esperança ,já que o brilho de alguns olhos eram mais intensos denunciando , talvez, um futuro educador .A tarefa não era falar sobre alfabetização , pedagogia , essas coisas , mas era pensar o currículo na sua dimensão política , e de como poderíamos transformar a sociologia ensinada em uma sociologia significativa na vida de cada um , ou seja , que aborda—se a política que fosse importante na ambiência do bairro , da família , dos movimentos sociais na qual cada um se socializava.Por mais estranho que pareça para uma sala lotada de um noturno , na ultima aula , beirando as 11 horas da noite , a frase tirada de um livro de Paulo Freire e Ira Shor instigou , não apenas os futuros pedagogos captados pelos meus olhos , mas uma geração carente de significado para a vida política , pois se a democracia pintou rostos na década de 1980 , hoje talvez anime uma eleição para executivo federal , mas de resto, não acreditam na efetivação de direitos , na idoneidade da administração pública , na escolha de pessoas e partidos representantes de seus pontos de vistas .Uma aula que foi marcada por um silêncio mortal na exposição , e uma enérgica participação no momento que abri o debate para a turma , que queriam uma sociologia que discutisse desde das dificuldade da efetivação de direitos á questão da revolução e utopias . Enfim , tal reação mostrou uma carência de política que fosse pensado para além das instituições formais que a abrigam , porque nessas eles não acreditam mais , aliás quase todo mundo errou na prova o que era Estado para Weber , mas para Marx o acerto foi quase de 100% , “o Estado é um comitê de negócios da burguesia”.

         Essa descrença , porém essa ânsia  reprimida pela política , é muito diferente da “estrutura de sentimento” da  geração do mestre que elaborou a idéia de uma pedagogia libertadora ,afinal , lá pelos idos da décadas de 1960 tinha-se essa esperança da transformação social em prol de uma utopia igualitária e ética, inclusive nos estudantes .A sociologia da cultura apontou essa transformação dessa geração esperançosa numa pós-modernidade sisuda , que tomou consciência do que era de fato a URSS, crente no fim da história , no triunfo dos poderosos com o neoliberalismo e assim por diante.Porém estamos no início de novos tempos , de um mundo em transformação , e não sabemos se é para o bem ou para mal , mas esse primeiro ano de década foi marcado por abalos , especialmente provocado por jovens : Primavera Árabe , Occupy Wall Street , por que não , protestos de Londres e etc.Uma nova de “estrutura de sentimento” , para usar a categoria de Willians , está para ser moldada frente a uma percepção de povo que espantaria até mesmo os iluministas mais libertários , pois o povo está na rede , o povo está no facebook , youtube , blogs , twitter , se desviando dos ataques de governos totalitários e de mídias tradicionais vendidas aos poderosos .E onde fica a escola nessa demanda por política ?

          Tanto os pontos de vista teóricos de Raymond Willians quanto o de Paulo Freire teve como ponto de partida a teoria de Gramsci.Este mestre , mesmo dentro das condições terríveis de um cárcere , deixou uma herança as gerações vindouras do ponto de vista da reflexão sobre as democracia burguesas .Democracia essa baseada no consenso e coerção , consenso este construído em espaços da sociedade civil , inclusive a escola , que garantiria uma hegemonia da classe dominante porém numa acepção de que o povo não era “besta” (como os magnatas de Wall Street pensam) e que era necessária negociar com estes.E se existia uma hegemonia dominante nessa sociedade civil , uma contra-hegemonia em prol da transformação social poderia ser operacionalizada com a participação de intelectuais orgânicos representantes das classes dominadas.A pergunta que fica nesse dia dos professores é de que lado estamos ?E pensado sobre os rumos deste novo mundo que se abre , qual o nosso novo papel ?Continuaremos a aceitar o desmantelamento da escola pública , conquista histórica que remonta aos sem calça e pão da revolução francesa? Temos bases e possiblidades práticas pra oferecer insumos ao novo cidadão que emerge ansioso por fazer política e com novas ferramentas para tanto ?

          Temos que pensar nossos pupilos com seriedade , se “babuínos são” por “n” motivos , também por esses dia no meu cotidiano os vi citar Voltaire , e rever umas 4 ou 5 vezes um vídeo que falava sobre luta de classes por um intelectual orgânico de sua geração , além de outras atividades políticas que não posso citar porque faço parte de uma “aparelho-ideológica de Estado”, se utilizarmos a visão mais crua, do ponto de vista teórico, de Althusser .

          Para finalizar ,paráfrase-o o panfletão da história : Professores do mundo uni-vos.E ,não posso compartilhar esse link no facebook , por uma repressão que pensei não existir mais , mas espero que meus companheiros os encontre nos bons rizomas que a rede pode nos oferecer.            

 

 

Paulo Freire e Ira Shor.Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do cárcere, 6 vols. Edição de Carlos Nelson Coutinho, com a colaboração de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999-2002.

WILLIAMS, Raymond.Marxismo e literatura. Rio de Janeiro, Zahar,1979.

Althusser, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

É possível um consumo consciente ?

                                               Maria Isabel Zanzotti de Oliveira .

            A Zara, renomada grife de origem espanhola, é um dos assuntos mais comentados do Twitter em razão  da divulgação  das investigações da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP), que encontraram trabalhadores em condições semelhantes à escravidão em São Paulo. Sendo que ,o  assunto está no topo dos Trending Topics brasileiros da rede social entre os não-patrocinados e chegou a figurar também entre os mais comentados do mundo.

        Deste deste fato , tenho lido alguns post de colegas apelando para o chamado “consumo consciente” , ou seja , consumir apenas marcas que respeitam os direitos humanos, ambientais e assim por diante.E frente a este tipo de denuncia ir depurando os itens e marcas que mais encaixe no estilo de vida de homens/mulheres ( de classe média)  politicamente corretos .Mas , será que é possível um consumo consciente no capitalismo ?

        O politicamente correto do consumo consciente e da responsabilidade social das empresas nasce nas décadas recentes , porém possuindo um caráter ideológico , já que pretende humanizar o capitalismo , porém sabemos que tal sistema de produção não tem nada de humano , afinal é um sistema baseado na alienação humana , ou seja , “na transformação de pessoas em coisas , e das coisas em pessoas”.E a coisificação do homem tem como finalidade o aumento do capital ,assim não importa se a empresa se diz politicamente correta ou não , sua finalidade ultima não é o bem-estar humano , mas o aumento do capital.

        A produção de valor no capitalismo acontece na produção de mercadorias , através da apropriação por parte do capital da mais-valia , ou seja , de uma parte dessa quantidade de valor produzido .Enfim , se o trabalhador produz 1000 calças por mês , ganha como salário o equivalente a 100 calças , e as outras 900 é apropriada como lucro por parte da empresa , e a  ambição burguesa é de cada vez mais mais-valia , que logicamente aumenta se o trabalhador trabalhar mais horas ou/e ganhar menos.Neste estado de coisas , não importa mais as pessoas , mas efetivamente as coisas .E , sendo assim , o capitalismo é formado pela contradição das classes , afinal uma se apropria e a outra é necessariamente explorado e sem uma regulação jurídica desta relação desigual e conflitante a exploração é máxima , desumana e de uma antagonismo exacerbado.Diante deste fato ocorre a luta histórica dos trabalhadores pela garantia de direitos , de uma relação de trabalho menos desumana , mas também a concessão das classes dominantes senhoras do “Estado de direto” das garantias trabalhistas , porque se não o fizessem a própria ânsia demasiada do capital provocaria um descontentamento social exacerbado frente aos antagonismos, colocando em risco o próprio capital.

        Mas, é logicamente dedutível que o capital não iria se submeter eternamente a este tipo de regulação , e no seu instinto animalesco de reproduzir sua tendência geral , ou seja , da extração de sempre mais mais-valia  , nas ultimas décadas assistimos uma restruturação do sistema baseado na “flexibilização do trabalho”.Enfim , as outrora grandes fábricas se transformaram nas empresas , grandes marcas , que possuem todos os artifícios possíveis para diminuir os custos de produção , ou seja , aumentar a mais-valia .Terceirização de atividades de manutenção , terceirização da própria produção , produção em lugares onde a mão de obra é mais barata e assim por diante .Enfim , uma precarização do trabalho .

      É neste contexto que encontramos escravidão em fabriquetas de costura em São Paulo , onde a terceirização da produção para fábrica menores significa esconder a não garantia de direitos de trabalhadores , sendo que justamente são recrutados neste trabalho desumano grupos sociais frágeis que podem ser facilmente coagidos como imigrantes e mulheres.A ameaça é simples , “boliviano se você não aceitar essas condições vou chamar os “federais” , e como você é ilegal e está faminto …”.

        O resultado é simples,muita das peças de roupa que nós ,a classe média feliz, adquirimos por aí possui essa origem nefasta , e não é somente a Zara que figura no rol das escravizadoras , mas a C&A , a Mariza e tantas outras empresas .Aliás , muitos produtos que consumimos e que necessita de trabalho manual intensivo pode ter tido este tipo de origem , incluindo cana de açúcar e IPods , que o diga os trabalhadores suicidas da FOXCCON.

       Portanto o consumo consciente é uma falácia no capitalismo , e os projetos de responsabilidade social , que inclusive a Zara os possui , são apenas projetos para “inglês ver” , assim como as primeiras leis de combate a escravidão no Brasil imperial.Talvez uma dia consumiremos conscientemente ,mas sob a égide do capital é impossível , pois são as coisas que nos consome.

            

Quadrinhos ideológicos

quarta-feira, 27 de julho de 2011

. תּוּלּאשׂ תּיּדּבּצּהּ Do “ultimo cabalista de Lisboa” ao holocausto.

 

Observações iniciais:

          Nos ultimos meses tenho estudado produções clássicas da antropologia para as provas que viram , e ainda não sei se farei todas , mas o que vale é a experiência e o prazer de estudar aquilo que gostamos , não é ? Em algumas leituras produzei resenhas , publiquei inclusive aqui uma resenha sobre o “negócio do michê’ em um post anterior , em outras leituras recuperei textos que havia produzido durante a graduação , sendo que o texto abaixo é um deles .Texto que gostei muito e que me proporcionou aplicar o conceito de sistema social de Edmund Leach , cunhado a partir dos “sistemas políticos da alta birmânia” .

        Por outro lado , recomendo tambem aos colegas a leitura do “ultimo cabalista de Lisboa” , que apesar de não ser tão afeita a literatura , na época que li me proporcionou momentos de emoção , sejam elas boas ou ruim .Por fim , recentemente lembrei desta reflexão sobre a comédia do horror assistindo o “train da la vie” , que faz comédia do contexto do holocausto , surpreendendo ao final pela sensibilidade a estratégias de superação , pelo menos mentalmente , do sofrimento .

http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2011/07/trem-da-vida-1998.html 

 

Do “ultimo cabalista de Lisboa” ao holocausto.

A comédia no drama.

“O ultimo cabalista de Lisboa”, romance escrito por Richard C.Zimler, narra a saga de um cabalista, Berequias Zarco, em busca de respostas acerca das misteriosas circunstâncias do assassinato de seu mestre cabalista e tio, Abraão Zarco. A narrativa se desenrola na Portugal do século XVI em meio um contexto real de perseguição, batismos forçados e matanças de judeus.

Os batismos forçados tiveram inicio em dezembro de 1949, devido a um acordo entre a coroa da Espanha e a coroa portuguesa. D. Fernando e D. Isabel, soberanos da Espanha, quatro anos antes haviam expulsado de seu país todos os Judeus que lá residiam, deste modo D.Manuel deveria fazer o mesmo que em troca receberia a mão da filha dos reis espanhóis. No entanto, os súditos judeus eram extremamente valiosos para o rei português, comerciantes e financiadores indispensáveis para Portugal, muitos deles eram “judeus da corte”, figuras responsáveis pelo financiamento e administração contábil das monarquias absolutistas em um momento onde a burguesia nascente não queria e não podia se prestar a tal serviço. Vários personagens do “cabalista” se encontram nesta posição, talvez como recurso estilístico para marcar sua posição ambígua alguns deles desconheciam sua origem judaica até o momento que a narrativa se inicia. A solução do dilema encontrado por D.Manuel foi o batismo forçado dos judeus, que ficaram conhecidos como cristãos novos, que foram proibidos de sair de Portugal. Muitos destes cristãos novos continuaram a praticar clandestinamente o judaísmo, a família de Berequias é uma delas. Deste modo, os judeus portugueses estavam em uma situação de estrema fragilidade, a despeito de sua importância para o Estado Português, não podendo fugir frente às irrupções populares e religiosas de ódio anti-semita, eram pássaros valiosos presos a uma gaiola onde gatos sanguinários estavam à espreita.

- A tua tia sempre teve jeito para ameaças - sussurrou-me Frei Carlos com um sorriso maldoso - Lembras-te do dia em que te levaram à força para te baptizarem na Sé? Lançou-lhes pragas em sete línguas diferentes... Hebreu, persa, árabe, português...

- Lembramos, lembramos - interrompi, erguendo a mão num gesto de desaprovação, tentando poupar-nos à evocação. Tarde de mais. Os olhos de tia Ester tinham-se tornado distantes e opacos, mergulhados numa paisagem interior. A sua mão deslizara sob o lenço carmesim e traçava o contorno da cicatriz cruciforme que lhe tinha sido imposta naquela amaldiçoada manhã do nosso baptismo forçado. Nessa ocasião, mais que nenhuma outra, tinha resistido aos beleguins mandados pelo rei para arrastarem os judeus até à Sé. Um dos guardas, querendo dá-la como exemplo, atirou-a ao chão e prendeu-lhe as mãos e os pés ao empedrado da Rua de São Pedro. Um frade dominicano empunhando um ferro incandescente tinha então gravado uma cruz na sua fronte, enquanto gritava, para que todos pudessem ouvir: «Eu te abençoo com o signo de Deus, Nosso Senhor.

A mim, por meu turno, as crianças cristãs cobriram-me de sangue de porco e de serrim durante o caminho da cerimónia do baptismo até minha casa. Mas não podiam adivinhar a dádiva que me fizeram: esta humilhação abrasadora mereceu-me o olhar misericordioso do Senhor e tive então a primeira das minhas visões.pg 17.

O enredo do “cabalista” gira em torno das andanças de Berequias em busca do assassino de seus tio.Assassinado em um local secreto onde se encontravam aspirantes e cabalistas, no mesmo dia em que um massacre de judeus foi perpretado pela população cristã lisboeta .Porém, Abraão Zarco não havia sido assassinado por ser judeu como tantos naquele fatídico dia, mas por ser um atravessador de livros hebraicos valiosos e perseguidos em Portugal.Morto em um local secreto , conhecido apenas por cabalistas , sendo que um livro ilustrado de Ester é levado pelo assassino sem destruir os demais ,como um cristão fanático supostamente faria , colocando assim toda a supeita nos iniciados cabalista e nos atravessadores de livros.

O estilo literário do “cabalista” transita entre o horror, com muito sangue, fogo e restos mortais espalhados pelas ruas de Lisboa, e entre a comedia, com personagens bizarros, estabelecendo diálogos e ações não mesmos bizarras. Fazendo um paralelo com o cinema, o “ultimo cabalista” é uma estranha mistura entre a comedia sobre o mundo medieval “as incríveis aventuras de Brancaleone” e uma aterrorizante e perturbadora película do holocausto. Portanto, uma das primeiras questões que se pode suscitar sobre livro é saber qual o lugar e a função ocupada pela comedia num cenário desolador e de horror flagrante como o da Lisboa de Berequias.

Uma primeira hipótese para utilização do recurso da comédia para descrever o horror é a de que talvez Zimler tenta-se mostrar com o recurso da comedia a boçalidade do povo na transição entre um mundo medieval ainda obscurantista e supersticioso para um mundo racionalista.

O dia do nosso primeiro seder da Páscoa ergueu-se fusco e seco, como todas as manhãs ultimamente. Há mais de onze semanas q[1]ue não recebíamos a benção da chuva. E também hoje não choveria.

A peste, essa, assediava-nos com calafrios os corpos e as almas já desde a segunda semana de Heshvan - há mais de onze semanas.Os médicos feitos à pressa de El-Rei D. Manuel acharam que o gado era o ideal para absorver as essêncías que pairavam no ar e a que atribuíam a epidemia e assim duas centenas de vacas entontecidas pelo calor foram deixadas à solta a vaguear pelas ruas.pg 12

O recurso a comedia no horror é tambem uma maneira de suavizar narrativas violentas , produzindo uma fuga de olhar para o leitor que enfrenta conjuntamente aos personagens deste tipo de história momentos de estrema tensão , medo e enjôo. “A vida é bella”[2], premiado filme italiano sobre o Holocausto, se utiliza do recurso da comedia no horror na perspectiva do interior da narrativa .Um pai com seu filho em um campo de concentração nazista faz com que o “pequeno” acredite ser tudo aquilo uma grande brincadeira , um jogo , ludibriando a criança a fim de que ela não sofresse com a perspectiva de uma morte eminente.Assim o filme é ao mesmo tempo brutal e doce .No entanto , o filme não foi recebido como uma unanimidade fora e dentro da comunidade judaica , sendo criticado em primeiro lugar por tratar as vitimas do holocausto de maneira desrespeitosa ao fazer comedia no horror , e em segundo lugar por ter transmitido uma imagem suave do genocídio o que poderia fazer alguem acreditar que os campos de concentração foram realidades violentas insignificantes .

Mas fazer comedia no horror é cotidianizar a dor dos personagens , os humanizado , tranzendo-os para proximo de nós .O pai assim poderia ser qualquer pai , judeu ou não , enfim, nos mesmos poderiamos ser o pai tentando evitar o sofrimento de nosso filho.Nesta perspectiva a comedia no horror produz identificação do leitor/telespectador com o personagem.Pois há determinadas piadas que somente ousamos fazer em ambientes familires .O mesmo pode ser dito de Berequias , narrador em primeira pessoa , nos coloca em contato com seu corpo , sua familia e sua vizinhança de maneira cômica , o que possivelmente aproxima o leitor deste herói.

No entanto , talvez a história de Berequias seja não apenas uma comedia no horror mas tambem uma comedia do horror .Melhor dizendo , a narrativa em primeira pessoa , mostra um personagem vivendo situações de violência brutal e que somente tais absurdos poderiam ser feitas por pessoas igualmentes absurdas , em uma realidade absurda , um contexto virado de ponta cabeça.Assim sendo , Berequias somente consegue interpretar seus perseguidores em termos cômicos , não havendo racionalidade onde há violência , apenas ignorância supersticiosa , boçalidade.

O guarda abre o portão. Nos degraus da frontaria, um criado atarracado, de cabelos oleosos, acobreados e uma testa suada cheia de borbulhas corre para mim. Usa perneiras azuis demasiado apertadas para as suas nádegas carnudas e o gibão de brocado verde está rasgado na gola. Toma-me pelo braço, como que a defender-me do perigo. De perto, apercebo-me de que o seu pescoço gordo tem umas arranhadelas abertas e vermelhentas. Estará atacado de sarna? Cheira a metal, como uma velha moeda. Talvez ande a tomar pílulas de antímónio, um tratamento receitado a torto e a direito pelos doutores cristãos feitos à pressa.

- Para dentro... Para dentro! - sussurra, agitando vivamente as mãos. Introduz-me numa sala de espera abobadada, pintada com frescos de deuses e deusas rosados num estilo florentino, depois observa-me de cima a baixo COM um ar extasiado, e olhos maliciosos. Num murmúrio conspirativo, pergunta-me

- Deus é realmente um boi?

- O quê?

- O deus dos judeus é um boi? - Forma uns cornos sobre a cabeça com as mãos, fala como se eu não compreendesse o português. - Sabe?... O macho da vaca... O marido da vaca... Boi.

Já tinha ouvido falar de mestres de Coimbra que acreditavam que tínhamos caudas , de bispos de Braga que clamavam que usávamos sangue fresco de crianças cristãs nos nossos rituais da Páscoa, de doutores do Porto que diziam que tínhamos um odor idêntico ao da carne podre de baleia, o foetor judaiCus. Mas a crença de que rezávamos a um boi era uma calúnia nova. Só algumas semanas depois compreendi a origem de tal desacerto: o criado tinha confundido a palavra «touro» com «Tora».

Por vezes Berequias narra situações dramáticas , de violência desmetida , num tom cômico .O que nos faz chegar a conclusão de que para ele não apenas os personagens que perpetram a violência são cômicos , mas a propria violência em si .

Um vago murmúrio como de uma multidão numa arena distante. Estranho: as casas de portadas cerradas, as lojas fechadas, como se fosse já noite. Em meu redor as ruas estavam todas desertas, cobertas pelas sombras do entardecer. Fui avançando, sentindo os pés na calçada. Ao passar as muralhas de granito do castelo mourisco, dois moços jornaleiros correram para mim brandindo foices. Ia a correr, mas apercebi-me que seria inútil. Um deles encostou a lâmina curva ao meu pescoço. Na mão segurava pelos cabelos a cabeça decapitada de uma mulher, gotejante de sangue. Não a reconheci. - És marrano? - perguntou, para saber se eu era um judeu convertido. O seu olho direito de um branco leitoso, esbugalhado, reflectia o meu medo com um brilho maldoso. - Porque desta vez vamos dar cabo de todos os marranos!

O meu coração batia desesperadamente numa prece pela vida. Abanei a cabeça e estendi-lhe a minha sacola.

Olha!

Passou-a ao seu comparsa barbudo, que espreitando para dentro e farejando-a, rosnou «Chouriços!» e devolveu-ma.

Enquanto eu agradecia a Deus, o cegueta baixou a foice e perguntou: «Isso é vinho?» Acenei que sim e ele tirou-mo das mãos. A minha respiração tornouse ansiosa e hesitante.

- Aquele fumo... onde é?

- Uma pira sagrada no Rossio. Os dominicanos querem fazer chegar até Deus um sinal com as chamas da carne dos judeus.

O temor pelo destino do meu povo a apertar-me as entranhas impediu-me de fazer mais perguntas. Os dois homens beberam até fartar e depois fecharam o batoque. Eu não podia desviar os olhos da cabeça da mulher. Os olhos não pareciam sem vida. Que via neles então? O alheamento deste mundo? Ao pegar no barril que me estendiam, percorreu-me o peito um calafrio como se provocado por um espírito fugitivo. O barbudo levantou a cabeça decapitada, lambendo-lhe as faces como se saboreasse o suor de uma amante. Puxando a corda que lhe segurava as calças, expôs as suas imundas partes sem circuncisão. Com os seus dedos cheios de porcaria mantinha aberta a boca enegrecida da mulher, segurando-a à altura da cintura. E começou a fazer algo de inenarrável. O outro observava-o, ao mesmo tempo que comprimia contra si a mão espalmada. Eu não ousava fechar os olhos, mas virei a cara. Quando cessaram os seus grunhidos, voltou a apertar as calças e exclamou:

- Vê lá por onde andas. Há quem confunda as pessoas com judeus! Pg33,34

Se deslocar da perspectiva de Berequias tambem é válido , se pensarmos no ponto de vista da população cristã de Lisboa assolada pela peste e faminta com uma unica resposta para suas fatalidades dada pelo clero , a de que os judeus é que eram culpados .No entanto , estavam limitados em agir a sua maneira , superticiosa e anti-semita , pelo seu soberano que como já havia dito necessitava dos judeus para sobreviência ecônomica do Estado Português .A população de Lisboa estava assim em uma estado de histeria generalizada , incluindo nesta população um rei divido , judeus presos e assustados numa gaiola com as feras e por fim , um bando de feras desorientadas .Uma bomba relógio !Gente que em um estado de crise como este foram impelidos a montar uma fogueira de judeus com fumo e depois recolher os dentes que restaram para ter sorte.A loucura , as contradições entre as partes envolvidos , e um dilema que não poderia ser resolvido simplismente com um batismo forçado provocava um estado de drama social que somente poderia ser expresso pela comédia , uma comédia do horror.

Quando Farid e eu chegamos ao Rossio, as cinzas e lascas de lenha das fogueiras onde queimaram os judeus rodopiam em torno a nós. A princípio parece ser o único vestígio que resta da montanha dos pecados cristãos e eu penso: «Os nossos mortos moram agora apenas na nossa memória.» Farid no entanto repara que não é bem assim. “Olha!” - e aponta com o pé uma fenda entre as pedras. Dentes humanos. Deve haver milhares deles espalhados por todo o largo, enfiados nas rachas da calçada. Apercebo-me então que por toda a parte se vêem mulheres e crianças ajoelhados a apanhar estes restos, como se fosse a época das colheitas. Sem dúvida devem querer guardá-los como talismãs contra a peste.

Para a comedia , o drama , o desequilibrio não estar presente nesta sociedade lisboeta ,descrita no cabalista , cada um deveria ocupar o seus lugar devido dentro da sociedade , alias dentro da estrutural social , do conjunto de normas e pressupostos do qual cada grupo fazia parte .D.Manuel como rei cristão da pensinsula hibérica deveria expulsar os judeus de seu reino , como seus semelhantes , os soberanos espanhóis o fizeram.O mesmo poderia se dito da população de Lisboa , no caso seu dever era explusar e matar judeus tais como seus vizinhos espanhóis o fizeram , no entanto ,o rei está constantemente negando-lhes esta oportunidade com o uso da força estatal para o controle da população.Os judeus , como portadores de uma identidade judaica deveria não negar sua crença , não deveriam se tornar cristãos novos , ou como cristão novos deveriam abandonar as praticas judaicas , aliás o narrador do “cabalista” nos informa no inicio do livro que muitos judeus preferiram matar a si mesmo e aos seus filhos do que se tornarem cristão novos.Os marranos deveriam fugir para um reino que os quizesse na qual estivessem seguros , porem as fronteiras foram fechadas para eles segundo o interesse do rei , deste modo eles ficaram engaiolados .Todos repensam e jogam com seus papéis em decorrência da conjuntura histórica e economica , judeus virão cristão-novos e falam hebraico em suas comunidades , D.Manuel de anti-semita transita para papel de filo-semita e vice-versa , e no fim , os carrascos cristãos perseguidores se tornam uma população acuada no dia seguinte frente a guarda real.

Não seria assim os personagens do cabalista e lisboetas ,do final do seculo XV e do inicio do seculo XVI , proximos do modelo teorico de sistemas sociais de Edmund Leach ? As negociações linguisticas dos kachins que buscavam angarinhar ganhos politicos trocando dialeto como se troca de roupa , não estaria proximo da instabilidade social , dramática , de cristão-novos , cristão-velhos e um rei inconstante ?

Shans e Kachins na alta Birmânia , e cristão-novos e velhos em Portugual .

Como já explicitado o subtitulo anterior , a analise de Edmund Leach sobre os Kachin e os Shans da alta Birmãnia possuem pontos de semelhança com a situação social narrada no “ultimo cabalista de Lisboa”.O papel da instabilidade na analise da antropologia politica e a estrutura e a práxis em processo dialogíco de ação dos individuos são pontos de encontro entre os Birmaneses e os portugueses do século XVI.Primeiramente a analise de Leach será apresentado , posteriormente estabeleceremos conexões dela com o universo social do cabalista.

Edmund Leach ao analisar “os sistemas politicos da alta Birmânia” apresenta um modelo alternativo das ditas sociedades primitivas dos seus comtemporaneos, dialongo e estabelencendo um ponto de vista critico com autores como Radcliff-Brown ,Malinoski, Durkheim e assim por diante .Tais autores possuiam uma visão segundo o qual as sociedades primitivas tendem ao equilibrio, tudo estando relacionado com tudo , neste tipo de modelo não há espaço para o acaso e o inesperado não é possivel.Deste modo era possivel a comparação entre as sociedades , comparando estruturas sociais se encontraria semelhanças, diferenças, funções estruturais das relações sociais. Radcliff-Brown , por exemplo , afirma que as sociedades tendem a se reproduzir , uma estrutura rigida onde há pouco espaço para se pensar a mundança social .

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Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg3

Leach critica esta perspectiva pois segundo ele não há nada nas coisas que tenha que ter sentido necessariamente , a realidade é caótica , está ao acaso .Muito destas concepções de equilibrio é por um lado a reprodução do discurso perfeccionista nativo , e por outro lado são derivados de pressupostos hobbesianos de ordem e equilibrio proprios do olhar da sociedade do antropologo.

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Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg71.

Para o autor existe duas dimensões conceituais para analises das sociedades e dos aspectos politicos das mesmas, cultura, estrutura social, de um lado e os sistemas sociais de outro lado.Uma das dimensões é a cultural ,sistemas de crenças, regras , representações simbolicas e rituais.A estrutura social deste modo pretende ordenar a sociedade com um conjunto de regras.Porem as sociedades , e as suas respectivas estruturas sociais estão se relacionando constantemente ,dialogando entre si e entre o passado , presente e pratica , ou seja a história .E esta relação com a pratica cotidiana , onde individuos tentam manipular as estruturas em seus favor , produzem os sistemas sociais , dinamicos e instáveis , portanto, espaços privilegiados de mundaça social .Entendendo sociedade aqui como uma unidade politica autônoma.

A partir disto podemos afirmar que os sistemas sociais apenas se tornam inteligiveis quando são colocados em relação a outros sistemas sociais.Não se compara inutilmente modelos estruturais rigidos a lá Radcliff Brow , mas sistemas sociais dinâmicos e coerentes com a prática social .Leach critica assim a noção de tribo , pois tal conceito trata os supostos grupos sociais enquanto unidade , rigida , congelada e trancada em si mesmo .Não colocar a dimensão histórica e relacional das sociedades e entre as sociedades nas analises antropologicas acaba deixando de lado ,por um erro metodologico , a capacidade de tranformação e dinamismos dos grupos .Cogelando teoricamente um grupo estudado no tempo e espaço.Assim sendo , será que as fronteiras sociais realmente existem ?Ou são elas ficções sociológicas?

O que coloca em questão a noção de ideal , estrutura social , contraposta a norma real , ou seja , aquela realmente acolhida na práxis , ação e representação devem ser pensadas para melhor compreensão da realidade social da qual se pretende descrever , enfim , estabelecendo parâmetros de distinção do que os nativos falam e o que os nativos fazem .A idealização que o nativo faz de si pode encobertar o que eles fazem na pratica cotidiana .A monogamia , por exemplo , em nossa sociedade apesar de ser um ideal há a previsão da trangressão ,na pratica a subversão da monogamia acontece .

(...)

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Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg71,72

Enfim , as pessoas manipulam a estrutura social de acordo com seus interesses particulares.O que aproxima o modelo de Leach do de Marshall Sahlins ao pensar a ação particular e interessada de cada um frente as estruturas sociais , eventualmente produzindo mudanças .Momento este que a história , a ação, enfrenta a estrutura social.

Assim , no instável se encontra a chave para questão da mudança social .Gluckman se aproxima desta visão , pois segundo ele em situações de eventos criticos , dramáticos , as mundanças sociais são perceptíveis e a analise social ganha densidade , o que aproxima estes dois autores de Victor Tuner com a noção de drama social.Assim sendo , a analise chega proximo da experiência social realmente vivida pelos individuos , como a estrutura social funciona na pratica social , a estrutura da conjuntura de sahlins ou a práxis confrontando as estruturas como em Bourdieu .

O que é então a estrutura social na pratica no que tange a politica ?São conjuntos de idéias que os individuos ou grupos possuem acerca do poder , e ao manipularem as contradições destas idéias os individuos ou grupos tentam favorecer os seus proprios interesses . clip_image010

Leach,Edmund.Sistemas politicos da alta Birmânia.pg72.

Deste modo Leach pensa os individuos como portadores de agência , diferente dos estruturalistas como RadCliff-Brown que a atrelando a estrutura ao individuo por intermédio de funções especificas o descrevia como totalmente previsível.No plano idealizado a linguagem ritual fala acerca da ordem social , porem a pratica a subverte na exploração utilitarista da contradição .A cultura para Leach é uma especie de acaso , uma roupagem que se veste para atuar socialmente.E ao divincular a cultura , que é o acaso , dos sistemas sociais a analise de Leach permite recuperar as comunicações entre os grupos, Kachin e Shan , por exemplo.

A linguagem assim como componente cultural , ou seja, roupagem , acaso , não é um componente identitário universal , os Kachins são exemplares .A lingua acaba se tornando neste contexto uma roupagem , trocando-se de lingua como se troca de roupa .Falar a mesma lingua pode significar amizade , enquanto que falar uma diferente pode ser interpretada como hostilidade .O uso da lingua fica a mercê das estratégias de cada individuo .Na comunidade da alta Birmania que Leach estudou seis tipos de linguas eram utilizadas circusntancialmente a fim de que cada individuo pudesse ganhar vantagens politicas e econômicas a partir desta postura.

Retornemos agora ao “cabalista” , melhor dizendo os conflitos entre judeus e portugueses na Lisboa do seculo XVI.No primeiro bloco desta analise, “comédia e drama” , foi apresentado as contradições da sociedade lisboeta , e de seu Estado , no periodo em que a narrativa do ultimo cabalista se passa.Lá chegamos a conclusão que aquela sociedade estava enloquecida , pois os papéis esperados de cada grupo estava deslocado em decorrência das circustâncias , provocando estabilidades onde facilmente o horror deslocava-se para a comédia para quem a quisesse descrever , como Zimler o fez.Não é o horror que era engraçado , este era apenas um produto , as contradições que tornavam o horror engraçado.

A estrutura social , se assim quizermos chamar , demandava um reino cristão onde os judeus necessariamente deveriam ser perseguidos.Isto se passava na mente dos suditos que eram anti-semitas e dos reis vizinhos , igualmente anti-semita .Porem os Estados Absolutistas, em especial Portugual inaugurador que se consolidou ainda no seculo XVI, necessitaram do financiamento e da habilidade contábil nas burocracias do elemento judeu , está é a figura do Judeu da corte.Faziam parte tambem da burguesia , eram comerciantes ricos , mercadores e assim por diante .Uns ganhavam tamanho prestígio que angarivam até mesmo titulos de nobreza.

Frente ao pedido do vizinho e o clamor da população o soberano tenta manipular a situação , a estrutura , criando assim uma nova dinamica social com os batismos forçados .A estrutura encontra a história ,e a práxis produz um elemento novo , cristão-velhos e cristão novos , um rei anti-semita ao mesmo tempo que filo-semita.

Estas novas roupagens são como novas linguagens,um individuo passava de judeu , a cristão-novo dependo da situação , as vezes , as caracteristicas permitiam aos individuos negar sua origem judaica e se passar por um cristão velho .Na história de Berequias um dos iniciados cabalista eram tambem frei católica , o frei Carlos , uma rica nobreza era católica nas aparências a ponto de niguem desconfiar de sua origem judaica , aliás este é um ponto fundamental para a resolução do mistério da morte de Abraão .O rei , por sua vez, podia de acordo com os ganhos possíveis ser um anti-semita numa dada situação e um filo-semita quando isto lhe beneficiava.O povo em geral , a mercê da força do soberano , não tinha muita agência , mas ao desviar do olhar do rei de ovelhinhas obedientes a um rei absoluto se tranformavam em feras violentas .

Havia assim sistemas sociais/politicos de negociação de linguagens culturais para ganhos individuais e de grupo politicos e economicos a despeito das normas e ideais esperados de cada grupo.O ideal judeu era ir para “cova dos leões”,ou para a fornalha de mil graus ao invés de negar sua origem judaica , mas pela sua propria segurança fisica , bom andamento dos negócios e frente a impossibilidade de fugir , era melhor se esconder entre as várias faces que o batismo o oferecia .D.Manuel , do mesmo modo ,idealmente ele deveria ser semelhante ao rei espanhol anti-semita, e leal ao povo português anti-semita assustado , dar respaldos aos discursos da igreja , mas não podia se desfazer de súditos fundamentais para os negócios do Estado , frente a isto manipulou a estrutura oferencendo o batismo numa mão e uma parceria em negócios na outra, ficando bem politicamente e economicamente.

Porem os sistemas rei/reino espanhol , rei/judeus , rei/povo e igreja colocava as contradições cotidiamente para as pessoas envolvidas , uma estabilidade tamanha que alguem poderia afirma ter sido um dos fatores da confecção das fogueiras no Rossio.No entanto ,o contrário tambem pode ser dito, a falta de capacidade de barganha oferecido a um dos sistemas sociais , aquele que colocava rei em um polo e e a igreja cada vez mais distituida de poder e o povo em outro polo, provocou uma reação extremamente violenta.Mas conclusivamente podemos dizer que este Estado absolutista é na realidade composta não apenas por uma diversidade religiosa conflituosa mas tambem por uma diversidade de relações situacionais com o poder. Não podemos defini-lo em uma unica formula do tipo os “nuer são assim”, “o reino português é assado” , mas para se obter conclusões relevantes há a necessidade de analisar os grupos em relação uns com os outros e as contingências históricas que produzem estes esquemas situacionais com o poder.

Do anti-semitismo no “cabalista” ao anti-semitismo do holocausto.

No contexto na qual se passa a história de Berequias as negociações e barganhas eram possivéis , dependia apenas da capacidade e da influência de cada grupo ou individuo .Durante o “seder” da pascóa , as prima de Berequias e seu marido foram presos pelas autoridades portuguesas , Abraão logo mandou avisar para que os judeus nobres intercedessem por sua filha .

Como viemos a saber, minha prima Reza e todos os outros convivas da sua seder secreta tinham sido presos na noite anterior e levados para a cadeia da cidade. Alguém os terá denunciado. E meu tio? Será que o presenciou através de alguma janela mística ou terá simplesmente pressentido que alguma coisa de terrível se passava? Vendo-me ler o recado essa manhã, minha mãe anunciou-me:

- Os tios foram à procura dos nobres cristãos-novos que servem na corte. Estão esperançados que algum deles possa dar uma ajuda.pg 31.

As coletividades judaicas , da época medieval ao inicio do século XX, reagiram frente as hostilidades através de sistemas sociais de negociação e barganha , se utilizarmos os termos de Leach , no entanto , não almejaram de maneira sistemática constituir uma estrutura politica que lhes fosse própria , jogavam assim no interior das estruturas alheias .Estabelecendo , portanto , uma relação de isolamento da politica , segundo Hannah Arendt uma indiferença judaica as “condições e eventos do mundo exterior”.Na narrativa do “ultimo cabalista de Lisboa” nos deparamos com esta configuração , sendo o “judeu da corte” e o gueto as chaves para compreender esta questão .

A mercê da hostilidade cristã os judeus foram confinados em guetos em diversas partes da Europa. A palavra gueto é de origem italiana, Borgheto, que significa Burgo, bairro, tendo equivalentes locais como a judiaria ibérica. Deste modo, o gueto segregava da sociedade em geral os grupos judeus, mas promovia a solidariedade e a identidade judaica internamente, eram assim visíveis como diferentes para si e para os outros. O gueto judaico, a judiaria, era uma forma de apartar fisicamente da população aquele que mantinham uma relação de neutralidade e afastamento do Estado. Não configurando assim uma “sociedade contra o Estado” a lá Pierre Clastes, pois população judaica nada fazia para se opor a Estado, apenas era uma coletividade sem Estado vivendo e barganhando proteção dentro de um Estado alheio. Era uma situação confortável para os judeus ricos que adquiriam privilégios na ordem societária do ancién regime justamente pelo status de “apartados”, mas também era confortável ao Estado absolutista ao obter um financiamento desinteressado quanto aos rumos da política, ou seja, sem vinculações comprometidas com as monarquias inimigas. No entanto com o advento do Estado-nação o gueto se tornou algo insuportável, “um Estado dentro do Estado”, e a emancipação e a assimilação foram respostas a este incômodo.

O judeus como financiadores e habéis contabilistas eram utéis as nascentes monarquias absolutistas européias , eram o unico grupo disposto a financiar o Estado, e eram imparciais por ser um grupo a parte ,ou seja , um grupo que alienava dos enventos da politica . Os judeus, justamente por sua não identificação com uma unidade política, eram procurados como financiadores e em outras vezes como diplomatas justamente por sua imparcialidade de um lado e riqueza do outro no momento do aparecimento e da consolidação do Estado absolutista .A burguesia nascente não se interessava e não podia financiar as monarquias absolutistas em seus projetos de fortalecimento da maquina estatal e de unificação , não havia outro grupo com aval moral e social para se tornar financiadores e contabilistas deste ambiciosos reinos alem dos judeus .Deste modo , o “judeu da corte” se torna uma importante ferramenta para o rei , assim se explica o fato de D.Manuel estar hesitante em expulsar os judeus de Portugal . E , por outro lado, este poderio econômico era muita das vezes moeda de troca para a proteção das populações judias.

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Arendt, Hannah. As origens do totalitarismo. Companhia das letras : São Paulo, 1998.pg76.

Hannah Arendt identifica este tipo de comportamento para com a política como um erro fatal cometido pelas lideranças judaicas durante o genocídio de judeus durante o nazismo. Pois o tipo de anti-semitismo enfrentado já não era mais o mesmo, e o regime de terror não permitia sistemas sociais de negociação pacífica. Não há, conseqüentemente, uma continuidade entre o anti-semitismo como ódio religioso medieval aos judeus do “cabalista” e o anti-semitismo como ideologia leiga no século XIX , porque as conseqüências para os dois fenômenos foram totalmente diversas ,apesar da reação ter sido a mesma.

Arednt critica a posição dos historiadores que colocam uma continuidade entre os anti-semitismos históricos. Atrás deste posicionamento talvez tenha uma ponto de vista ideológico, a de que os judeus foram sempre perseguidos por ser o povo escolhido, portanto, são superiores aos gentios, afinal ao contrário destes sempre pregaram a tolerância e a igualdade. Esta teoria dos judeus como “eterno bode expiatório” pode ser também uma poderosa justificação para os “carrascos” que desta maneira podem naturalizar o ódio aos judeus se isentando da culpa. Por outro lado a teoria do “eterno bode expiatório” não leva em conta a participação dos próprios judeus na história, que como qualquer grupo, tiveram algum papel nos fatos que levaram aos acontecimentos. Tendo, deste modo, o seu papel nos eventos específicos que levaram ao holocausto.

Mas qual a especificidade do anti-semitismo moderno que levou ao holocausto? O que aconteceu?Por que aconteceu?Como foi possível?Qual seria a origem deste anti-semitismo justamente em um mundo em que os judeus estavam sendo incluídos na sociedade européia através da assimilação e emancipação, se assemelhando a qualquer cidadão? Quais seriam as características deste anti-semitismo, que emergia num momento onde a riqueza dos judeus era insignificante para os propósitos do poder, onde os judeus se afastavam do mesmo?

O imperialismo é central para compreensão da emergência do anti-semitismo moderno, de acordo com Hannah Arendt A burguesia européia se atrelava cada vez mais ao poder neste tipo de Estado que supostamente defendia diretamente seus interesses, o Estado imperialista. Para os fins do Estado nesta nova configuração política o dinheiro judeu não era mais necessário, alias era insignificante. O anti-semitismo ganhou força neste período de perda de influência econômica judaica para com as instâncias de poder.

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Arendt ,Hannah .As origens do totalitarismo .Companhia das letras : São Paulo, 1998.pg24.

O dinheiro sem propósito não estaria na base do anti-semitismo moderno? Segundo Hannah Arednt , os homens obedecem e toleram o poder por um lado e odeiam aqueles que possuem riqueza mais que estão destituídos de poder é apenas porque supostamente há alguma utilidade no poder .O poder deve produzir , para o bem ou para o mal , ordem e trabalho .Se um grupo , apesar de detentor de riqueza , se isola da política , se isola dos outros homens , são assim considerados parasitas e revoltantes tal como a nobreza foi considerada no decorrer das revoluções burguesas. Portanto, a tese do dinheiro judeu desraigado da política como fator da explosão anti-semita é válida. Deste modo, o imperialismo é uma das raízes do anti-semitismo moderno.

O terror como mecanismo de controle das massas também é uma das hipóteses correntes para a emergência do anti-semitismo moderno, pois o terror se utiliza sistematicamente de identificações arbitrárias para promover o medo generalizado, assim qualquer um a qualquer momento pode se tornar vitima, não havendo um critério de culpabilidade para a condenação, aliás, a vitima inocente é alvo, sendo que a pessoa não é presa por ser culpada mais apenas por se judeu, por exemplo. Porém, esta explicação é parcialmente correta, no sentido de que para o terror existir ele tem que estabelecer ascender ao poder, e para tanto ele necessita de uma ideologia que se espalhe no corpo social dando bases e legitimidade para sua ascensão. Compreendendo esta lógica, de acordo com Hannah Arendt, para que se entenda o fenômeno do anti-semitismo moderno não basta desmistificar os “protocolos dos sábios de Sião”, mas explicar o porquê de uma farsa tão evidente ter se tornado uma crença generalizada .

O caso Dreifus também é paradigmático para compreensão do anti-semitismo moderno e da política de extermínio decorrente. No contexto da perda da Alsácia Lorena para os alemães na guerra franco-prussiana, o general francês e judeu Dreifus foi acusado de espionagem em favor do inimigo. A sociedade francesa se dividiu em torno da polemica da condenação ou da absolvição do militar. Emile Zolá, por exemplo, escreveu o famoso artigo “eu acuso” defendendo a inocência de Dreifus e acusando a sociedade francesa de anti-semita. Uma das respostas favoráveis a acusação que ganhou visibilidade foi a de que “melhor seria que ele fosse inocente , pois assim sofreria mais , indicando uma nova interpretação da questão da condenação jurídica que marcaria os acontecimentos vindouros de execução de judeus , a da perseguição da vitima inocente .

Além do imperialismo, da ideologia do racismo, da idéia de perseguição a vitima inocente como pratica de terror, outro aspecto foi necessário para a formação do anti-semitismo moderno que levou ao nazismo, a construção daquilo que Hannah Arendt chamou de “ralé”. A “ralé” foi uma aliança trans-classe entre remanescentes da aristocracia, burgueses e proletários, grupos que estão estruturalmente em contradição, mas que se unem em torno de uma ideologia e da demarcação de um inimigo comum para fins de acobertamento das contradições que os coloca em confronto entre si.

Frente a este quadro, uma pergunta se coloca, por que a resistência ao extermínio foi tímida, tanto por parte das coletividades judaicas quanto pelas localidades ocupadas pelos nazistas?

A assimilação e a emancipação marcaram o período anterior as grandes guerras. A emancipação, de caráter jurídico, derrubou as leis que segregavam os judeus enquanto cidadãos no interior do Estado, a assimilação, por sua vez, foi uma processo de inserção dos judeus no universo gentio que sistematicamente secularizavam seu modo de vida. Segundo Arendt, se a resistência ao holocausto foi possível em alguns lugares é porque era uma aposta política possível. A resistência ou não das localidades ocupadas a política de extermínio se deveu ao grau de identificação das populações nativas para com aqueles que estavam sendo apontados como judeus, decorrentes em grande medida dos diferentes processos de emancipação e assimilação.

Quanto às coletividades judaicas sua posição de afastamento do universo da política aceitando passivamente a reinvenção do gueto se mostrou uma posição desastrosa. A resposta tradicional de afastamento e de barganha por intermédio da liderança não era mais possível frente a um Estado de terror que não mais necessitava de um financiador, pois já tinha a burguesia, mas sim de um inimigo para ser sistematicamente eliminado. Assim, os judeus também participaram da constituição daquilo que seria o holocausto, afinal frente ao crescimento da tensão anti-semita não reagiram em termo políticos, aceitando e tentando negociar pacificamente lei após lei anti-semita que era imposta, ou seja, aceitando passivamente a reinvenção do gueto.

Essa conclusão nos permite voltar à “comedia no horror” do “ultimo cabalista de Lisboa” e da “vida é bela”, afinal a negação da comédia pra descrição dos contextos pode ser sintomática da negação da participação na história como sujeito ativo. Já foi dito que a comédia cotidianiza os personagens, os humaniza, os torna qualquer um de nós a mercê das peripécias da vida. Berequias nos coloca em contato com seu corpo, suas praticas, sua vizinhança, sua família de maneira cômica e assim nos familiarizamos com ele, pois como já havia sido pontuado há certas piadas que só fazemos para os nossos familiares. Os judeus nesta linha de interpretação seriam como qualquer grupo historicamente posto respondendo as contingências da história e produzindo história. A comédia retira a idéia de exclusividade, a comédia desmitifica o mito do povo escolhido para ser eternamente perseguido justamente por ser bom. A idéia da eterna vitima, da vitima por si só, do “eterno bode expiatório” provavelmente obriga o nosso imaginário a cultuar a dor como única descrição e ação possível e permitida ao holocausto, o que se fossemos interpretar nos termos de Hannah Arendt nega a idéia de ação e resistência como possibilidade histórica. Não que a dor não tenha sido profundamente dolorosa e a memória da tragédia não nos assuste fortemente, mas falar compulsivamente da dor é uma espécie de martirologia que coloca os sofredores da “Shoah” não como humanos, mas como heróis desencarnados da história. Quando o pai judeu, em “a vida é bella” age em termos da comédia está resistindo, na esfera individual, de maneira criativa e inesperada ao holocausto. Não age coletivamente, ou seja, a necessária para aqueles contextos, se pensarmos nas conclusões de Arendt, mas a metáfora da ação presente no filme já é o suficiente para se fazer a analogia.

Assim sendo, o cômico significa humanidade e ação, descreve um sujeito comum que faz história. Sendo que a ação deve necessariamente estar presente na relação com o poder, se furtar da ação é uma aposta política desastrosa, esta é a lição que Hannah Arednt nos deixa ao explicar as origens do totalitarismo.

Quanto à questão do horror e da comedia, do ponto de vista estilístico literário todas as colocações postas aqui são apenas um recurso para construção e argumentação do artigo, não se baseando em teorias literárias, na intenção real dos autores do livro e do filme e sem a ambição de criar uma teoria literária do horror-comédia .

Bibliografia .

Arendt ,Hannah .As origens do totalitarismo .Companhia das letras : São Paulo, 1998.

Richard C. Zimler. O ultimo cabalista de Lisboa. Editora: Livros Quetzal , 2007.

Leach,Edmund R.- Sistemas políticos da Alta Birmânia.EDUSP.São Paulo ,1995.


[1] Mário Monicelli. L´ARMATA BRANCALEONE .Itália.1966.

[2]Roberto Benigni. La Vita Bella,Itália.1997

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O negócio do michê.

 

 

Determinadas leituras são realmente complicadas para pobres mortais como eu , e essa resenha , enlouquecida confesso , é uma tentativa de leitura da dissertação de Nestor Perlongher , “o negócio do michê” , a partir do que eu dispunha em termos do corpo teórico de Deleuze e Guattari , ou seja , a noção de rizoma.

Rizoma é um texto de Deleuze e Guattari , sendo o primeiro filósofo e o segundo psicanalista , o texto é uma introdução ao “capitalismo e esquizofrenia II” .Capitalismo e esquizofrenia foi publicado em dois volumes : o anti-édipo e mil platôs .O livro é uma reflexo de um vendaval libertário de 1968 , neste momento tinhasse a impressão que a revolução aconteceria no ocidente brevemente .Se 68 não aconteceu uma revolução social ocorreu uma revolução dos costume , de quebra da disciplina.Deleuze chamará a nova fase que se iniciava de fase do controle.

Capitalismo e esquizofrenia vem de uma discussão que existia desde da decáda de 1930 , esta discussão tinha a ambição de articular Marx e Freud , pensar em conjunto a econômia política e a economia libidinal .Uma barrando a transformação na outra , por exemplo , se os operários votaram pelo III Reich nazista , foram contra o proprio interesse ( econômia política ) mas de acordo com o seu desejo(libido).

Esta questão da economia e desejo , capitalismo e esquizofrinia , foi retomada criticamente na década de 1960 , os livros de “Deleuze/Guattari” são frutos desta discussão .No livro I , o anti-édipo , se faz uma releitura da história do mundo a partir de três grupos :selvagens , barbáros ( sociedades despótas) e sociedades civilizadas afim de captar esta relação entre econômia política e desejo.

Rizoma é a introdução de “capitalismo e esquizofrenia” II , retomando muitos temas do livro primeiro ,mas com uma nova ênfase colocada atráves da discussão de temas articulados por Platôs ,(mil platos ) , que são , por sua vez , épocas e momentos históricos que emergem questões fundamentais .

Em primeiro lugar , podemos dizer que rizoma é uma questão de método , ou ainda , rizoma é uma questão de anti-método .É um método que entra pelo meio ,não pelo começo , um método que entra de modo transversal.Esta introdução rizomática é o texto chave para compreender o livro como um todo , ele é uma caixa de ferramenta , um manual , um anti-manual .O projeto do livro , então , não é trazer uma explicação ,mas oferecer implicações .

Logo no ínicio de rizoma a idéia de livro é colocada em questão ,existem livros que são de caracter explicativos seguindo uma lógica linear de raiz ( um livro clássico) ; e há um outro tipo de livro , de tipo rizoma , onde o leitor não tem como se reconhecer no livro ,nele não se retira apenas o chão do leitor mas o leitor em sim , o sujeito .Retira-se o sujeito , mas tambem se retira o autor , pois o “ eu” é um experimento coletivo de enunciações, nada mais individualismo inglês que o econômico e popular do que o “I”, Deleze/Guattari estão explicando e desfazendo-se da noção de indentidade .Num livro rizomático, então, não há sujeito e objeto pré-constituídos , deste modo , entra-se pelo meio , e quanto o leitor entra em contato com o livro ele é agenciado por referências que lhes são particulares .

“O agenciamento é o acoplamento de um conjunto de relações materiais de um regime de signos que lhes corresponde”´.É sinônimo de maquinação .É a maquinação material-semiótica , fruto da materialidade e tambem do sentido , de significado .O agenciamento é de ordem espistemológica , de mediação mente e mundo.

Pensar rizomaticamente é pensar em rede . A lógica clássica é a lógica da liniariedade, do troco de árvore , a lógica rizomática é a lógica heterodoxa.A lógica de arvore remete a origens , identidades substanciais, causualidades únicas, o rizoma , por outro lado, oferece um guia para pensar a heterogeneidade das relações .Para pensar em rede tem que se pensar rizomaticamente , as coisas se implicando multiplicamente , olhar uma rede acaba por nos oferecer uma visão mais alargada , vizualizar outras relações de agenciamentos heterogênos acontecendo, a lógica da arvore permite vizualizar apenas o único .

“A arvore linguistica á maneira de Chonsky começa ainda em um ponto S e procede por dicotomia .Num rizoma , ao contrário ,cada traço não remete necessariamente a um traço lingüístico , cadeias semióticas de toda a natureza são ai conectadas a modos de codificação muito diversos , cadeias biológicas ,políticas e econômicas e etc , colocando em jogo não só regimes de signos diferentes , mas tambem estatutos de estado de coisas (cadeia semiótica).”

O pensamento de Foucault tambem possui um pouco desse caracter de rizoma , através da idéia de microfísica do poder , de projetos de poder .A critica contemporânea da noção de indentidade tambem pode ser inserida na lógica rizomática

Em o “negócio do michê” o antropólogo Nestor Perlongher faz uma etnografia do modo como se opera essa prática em territórios que lhes são específicos na cidade de São Paulo, sendo que para isso se conecta ao ponto de vista teórico de Deleuze e Guattari ao pensar os múltiplos agenciamentos que entrecortam economia política e economia libidinal.Na minha leitura parti do pressuposto que ele utilizava também da perspectiva do rizoma , ao preferir pensar as redes e as territorialidades espaciais e de identidade contextuais que acompanham a dinâmica de seu objeto, rizomático , por definição, pois , em sua dissertação acompanha sujeitos imersos em contextos de multiplicidades e confusões de identidades no sentido essencialista desta, sendo que estes códigos simbólicos de classificação se correlacionavam com códigos sociais de estratificação , articulando economia política e libidinal , seja, do ponto de vista da classe social , gênero , idade e raça.

Segundo ele , no momento em que processa sua pesquisa , nos anos de 1980 , estava em plena ascensão e vigor político a assunção de uma identidade gay igualitarista , em contraposição a modelos que buscavam repor a lógica identitária heterrossexual , permitindo inclusive a negação da identidade gay ao assumir papéis de ativos e “machões” .Enfim,em relação a identidades gays do período havia duas percepções , segundo Peter Fry , uma igualitarista e política , e outra própria do mediterrâneo , modelo popular-hierárquico, em que se reproduzia produzindo uma heterrosexualidade intensificada de bichonas e machões .

O “michê” em si , pode ser definido como o garoto de programa , masculinizado , que se auto-defini heterossexual , porém negocia-se em relações mercantis homossexuais , e muitas das vezes , essa própria afirmação de heterrossexualidade que se torna o objeto de desejo e de valor no mercado .Na rua , portanto , na práxis , essas identidades , por vezes , se mostravam contextuais , e os sujeitos , dependendo do segmento ,no sentido que Evans-Pritchard descreveu o modo de organização política dos Nuer, operavam em chaves simbólicas diferenciadas , ou seja, dependendo dos grupos sociais os indivíduos arregimentavam determinadas linguagens .

Por outro lado , também se fez interessante ao etnógrafo , pensar em rizoma , portanto , nos múltiplos agenciamentos que objeto de pesquisa se inseria , pois tomando como ponto de partida o entendimento das conexões entre economia política e libidinal era necessário olhar as múltiplas facetas , rizomas , que estes estavam inseridos do ponto de vista da estratificação social , tais como relações de hierarquia de classe , raça , gênero e idade.

“Assim , em vez de considerar os sujeitos enquanto unidades totais ,ver-se-á , conforme esta perspectiva , que eles estariam fragmentados por diversas segmentariedades .Assim , haveria uma segmentariedade binária , da ordem do molar – que cinde os sujeitos segundo oposições do sexo (homem , mulher) , de idade (jovem , velho ) , de classe (burguês, proletário) etc. Simultaneamente ,outra ordem de segmentos –que é preferível chamar de fluxo – moleculares que fazem referência a desejo- considerado não como uma energia pulsional indiferenciada , mas como resultante “ de uma montagem elaborada , de um enginnering de altas interações : toda uma segmentariedade flexível que trata de energias moleculares (Deleuze e Guattari ,1980, pg 262)-sacodem disruptivamente o corpo social .Movimentos de desterritorialização e reterritoralização operarão complexas transduções entre estas diversidades de planos .(...).Neste ponto a orientação será menos de fixar nos pontos de reterritoralização e paralisia (as correntes identidades) , e mais a de se abrir aos pontos de fuga e desterritorialização , explorando as linhas de mutação e suas vissitudes”. Pg 53.

“Bichas , mariconas , gays ,bofês , michês e boys “, e infinidades de nomenclaturas circulavam pelas ruas paulista da qual etnografia se ocupou e as tipologias das interações que pareciam fortuitas e ao acaso pode se identificar o atravessamento por redes de signos codificados , dai a necessidade de uma descrição densa como metodologia adotada.Também do ponto de vista metodológico adotou-se o conceito de região moral de Robert Park , que faz referência a segregação em determinados espaços de determinados grupos que se agrupam justamente por gostos que lhes são particulares .Nestor observa que no caso paulistano “ a margem ( no sentido sociológico ) ,volta-se para o centro ( no sentido ecológico)”no que tange aos devires considerados socialmente marginais .Articula essa noção de região moral com a de gueto gay , deslocando esta ultima categoria , que criada em contexto americano não era totalmente descritivo da realidade brasileira . O conceito de Levine de Guetto gay descreve este como território de concentração institucional , cultural , isolamento social , concentração residência de homossexuais .No entanto , de acordo com Perlongher , essas características estavam mais ou menos presente em São Paulo , que se distinguia se guetto marcadamente por onde concentrava-se a tolerância das sexualidades desviantes, não apenas a homossexual. É uma noção de guetto que não se refere a territórios , mas as redes nas quais se processa a circulação ora homessexual ora do negócio do michê , mapeando assim , um código território .

O autor também se vale da noção de estrutura e anti-estrutura de Victor Turner a fim de descrever os elementos marginais que compõem a cena da marginalidade e a entrada na mesma , com suas novas codificações advindas , novas territorializações .image

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Nestor identifica nesta de rede de códigos classificatórios de desejo e mercado tensores classificatórios : classe, gênero , idade , cor ,sendo que há um deslocamento dos sujeitos pelas redes dos códigos , se configurando um complexo código território .Ocorrendo , deste modo , relações mercantis e de busca da satisfação do desejo sexual , mas também outras sociabilidades sustentadas por esta, uma nômade/marginal e outra sedentário e normal que coexistem .Segundo ele não há entre a norma e marginalidade uma oposição radical , mas uma zona de deriva , de liminiariedade , com relações de contigüidade e diferenciação relativa , uma hieperterritorialização fluente com a distribuição e negociação de espaços .É necessário , deste modo , ler os fluxos , as territorializações e reterritoalizações , lendo o desviante como viajante entre os pontos de ruptura e os pontos de sutura , analisar o social não apenas em momentos de estruturação social , mas também em suas fugas e desestruturações .

“Em linhas gerais , reconhecemos a um marxista quando diz que uma sociedade se contradiz ,que uma sociedade se defini por suas contradições, em particular as contradições de classe.Nós dizemos melhor ,que uma sociedade toda foge , e que uma sociedade se defini melhor por essas linhas de fuga que afetam as massas de qualquer natureza (...)Uma sociedade , mas também um agenciamento coletivo , se defini em primeiro lugar por suas máximas de desterritorialização , por seus fluxos de desterritorialização (Deleuze e Parnet ,1980 , pg 154).

O nomadismo é histórico na sociedade da exploração pelo capital , ocorrendo um disciplinamento na força de trabalho nômade do início da super-exploração da revolução industrial , bem como de seus corpos , restando uma população marginal que possui estratégias de nomadismos , que inibem a consolidação de um poder estável que os circunscrevam , sejam elas , mendigos , prostitutos e assim por diante .Porém não é um tipo de sociabilidade caótica , apesar de acéfala quando a estruturação de um pode estável , mas marcada por simbologias, códigos,utilizados estrategicamente , em termos de derivas ou de lucro mercantil .Seja o cliente , seja o michê atravessam do normal ao nômade operando , se inserindo , territorializando e reterritorializando entre os diversos códigos.

A procura de uma paquera Nestor chama de deriva , porém a perambulação não é exatamente ao acaso .Ocorrendo uma deriva horizontal , ou seja , pelo território físico mesmo, e uma deriva vertical ,ou deslocamentos existenciais nos envolvidos no tráfico . Uma deriva vertical quer seria devires, no sentido de Deleuze e Gattari , ou seja , do deslocamento , desterritorialização dos sujeitos das identidades institucionais rígidas para linhas de fuga da estrutura social configurando uma articulação entre o nível dos corpos e das enunciações , agenciamentos coletivos de enunciações , agenciamentos maquínico dos corpos .Nada mais do que se inserir estrategicamente nos códigos para auferir vantagens econômicas e de status social , como por exemplo , negando a homossexualidade , afirmando uma macheza caricata , desprezando ou cobrando mais de clientes velhos, preferindo relações de tio/sobrinho do que “morar com bicha” , e assim por diante .Do lado cliente, estes códigos operariam via status e estratificação , atração pela pobreza , pela eminência da violência , pela preferência da brancura etc , etc , etc , lembrando que muita das vezes o valor de troca é construindo valor através da sexualização da diferença de gênero , idade, classe , cor .]

“O michê é muito fechado , não pode ter uma abertura .Se for educado , sorridente , as bichas acham que ele é bicha.Ele deve se isolar .Tem que ser sempre macho .É escravizado pelo comportamento .Quanto mais masculino , melhor .Não pode conversar , nem brincar , senão não gostam dele .Deve ser cinza , carrancudo , bruto , malcriado – ou gozador , do tipo malandro .Se ele não for assim , a bicha não aceita .Ele não pode ser inimigo , senão amigo , explorador .Se homem não ofende , então ele é bicha”.

Enfim , como nesse mercado se articula-se códigos sociais que estabeleceria ,alguma vezes provisória e cínica , as identidades , articulando os modos de operação da sociedade como um todo , dos seus modos de hierarquização , controle e estratificação , com o desejo , ou seja , economia política e libidinal operando uma em relação a outra em uma complexa rede , que no caso estudado é dissidente em relação as sexualidades prescritas pela estrutura social.

Bibliografia .

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. 5v. São Paulo, Ed. 34, 1997 [1980].

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EVANS-PRITCHARD, E. E. Os Nuer, Coleções Estudos, 53, Perspectiva. 2007

FRY, Peter. Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil. In: Para inglês ver. Identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp.87-115.

LEVINE, Martin. Gay ghetto. In: LEVINE, M. (org.) Gay men: the sociology of male homosexuality. Nova York, Harper & Row, 1979.

PARK, Robert. A cidade: sugestões para investigação social no meio urbano [1916]. In: Velho, Otávio G. (org.) O fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Zahar, 1973.
PERLONGHER, Nestor. O negócio do michê. 2ªed. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2008.

Turner, Victor.O processo ritual .Pretrópolis,Vozes , 1974.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Movimento operário no Brasil .Vídeos .

Insumos para o caderno do aluno 3 ano  do ensino médio .Volume 2.Movimentos sociais.

Revoltas populares dos séc.XIX e XX .Filme : A Guerra de Canudos (download).

Insumos para a sociologia do Ensino Médio .3 ano , segundo bimestre, Movimentos sociais.

         Este artigo visa oferecer um panorama geral das revoltas populares no Brasil de meados do século XIX e inicio do XX , buscando compreender os determinates estruturais destas rebeliões populares.

       Um desses primeiros determinates é sem dúvida alguma a exclusão do processo decisório institucional da grande maioria da população , num primeiro instante de Monarquia constitucional baseada no voto censintário e na escravidão da imensa maioria da população, e depois numa Republica de carácter oliguarquico onde se proibia o voto de analfabetos , ou , os que votavam eram submetidos ao chamado “voto de cabestro”, voto aberto e que sujeitava a massa da população rural brasileira ao designio dos grandes proprietários .

        “ A esmagadora maioria da população ,vivia nas áreas rurais e estava submetida aos designios dos grandes proprietários .Em 1920 , apenas 16,6 % dos brasileiros residiam em cidades com 20 mil habitantes ou mais , enquanto a taxa de analfabetismo girava em torno dos 70 %” .Luca , Tãnia Regina .Direitos sociais no Brasil .In : Pinsky , Jaime .Pinsky , Carla B.(org).História da cidadania .São Paulo :Contexto , 2008.pg469-470.

,

 

      Esta análise busca se centralizar em relação aos conflitos de caracteristicas nitidamente popular envolvendo as camadas da população que não tinha acesso aos processos e instâncias institucionais de decisão política , mas que se organizaram em defesa de territórios , bens , membros dos grupos , ideias e objetivos , encabeçados por lideranças locais.Após a independência , na primeira metade do século XIX essas rebeliões, apesar da diversidade de fatores , reivendicações e grupos sociais envolvidos , possuiam um determinante comum : a insatisfação com os governos locais e suas decisões e em relação a situação de pobresa e miséria que se encontrava a maior parte da população .Produzindo , deste modo , conflitos e tensões e a formação de grupos rebeldes organizados em torno de lideranças locais .Em relação a segunda metade do século XIX , já consolidado o poder imperial , a caracteristica preponderante das rebeliões , além da citadas acima , eram reações as reformas introduzidas pelo governo , como , por exemplo , a introdução do registro civil de nascimento e de novos sistemas de peso e medidas .Por fim , na passagem da Monarquia para a República , as revendicações se concentram na disputa pela posse da terra , período marcado pela revolta dos camponeses contra os mandos e desmandos dos chamados coronéis , ou seja , os grandes proprietários.

Vejamos :

1832-1835 –Revolta dos cabanos .http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/sangue-no-mato 

1835-1840.Cabanagem .http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u20.jhtm

1835.Revolta do Malês .http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/revolta-dos-males.jhtm

1838-1840.Balaida .http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u21.jhtm

1851-1852.Revolta contra o censo geral do império e registro civil de nascimentos e óbitos .http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_do_Ronco_da_Abelha

1874.Revolta dos quebra quilos .http://historia.abril.com.br/comportamento/nordeste-quilo-revolta-quebra-quilos-433572.shtml

1896-1897 .Guerra dos Canudos .http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u47.jhtm

1912-1916.Guerra do contestado.http://contestadoaguerradesconhecida.blogspot.com/

         Estas revoltas , em especial as que marcaram o inicio da República , Canudos e Contestado , ocorreram em um contesto político em que as camadas mais pobres da população não possuiam espaços de representação nas instâncias institucionais e de governo , que defendesse os interesses populares .Por outro lado, a grande maioria da população não possuia o acesso a propriedade da terra e precisava negociar espaços e condições para produção de roças e alimentos destinados ao comércio interno .Assim sendo, as condições de vida eram precárias , e a vida política era maracada pelo autoritarismos das elites políticas locais , o que distancia esta população das instãncias de poder e da capacidade de negociação de suas demandas sociais.

 

Bibliografia.

Caderno do professor : sociologia , ensino Médio –3 série , Volume 2.(Vários autores).São Paulo: SEE, 2009.pg9 a 16.

Luca , Tãnia Regina .Direitos sociais no Brasil .In : Pinsky , Jaime .Pinsky , Carla B.(org).História da cidadania .São Paulo :Contexto , 2008.pg469-470.

Filmes sobre o Tema .

cabanos.

Canudos . 

 http://www.megaupload.com/?d=2QUNTPBK


terça-feira, 24 de maio de 2011

Da natureza do sexo, as políticas feitas na natureza.

Por Maria Isabel Zanzotti de Oliveira.

 

Do sexo dos animais ao “sexo” dos homens.

Para a compreensão dos espaços políticos entre natureza e cultura.

           Este artigo visa explorar os conteúdos políticos presentes nas diferentes “visões de natureza”, tendo em vista que as diferentes visões sobre o mundo natural produzem legitimidades decorrentes das atribuições à natureza. A atribuição da animalidade enquanto constructo negativo e o uso da natureza enquanto espaço de normatividade e legitimidade são exemplos desse uso político da natureza.Sendo assim , em um primeiro instante analisaremos as discussões que dizem respeito à busca de uma natureza do sexo tanto nos homens quanto em animais, afinal este se mostra um debate contemporâneo crucial, deste modo , as teorias da seleção sexual e a teoria dissidente de uma biológa transgênera serão utilizadas como exemplos paradigmáticos.Para tanto utilizaremos também a análise da ciência de Bruno Latour ,autores da teoria feminista,como Judith Butler , Gayle Rubin ,bem como uma bibliografia especifica que trata da transposição da natureza para fins de poder tal como Thomas Keith , Stephen Jay Gold e Anne Fausto Sterling .Mas devido a dimensão da problemática estenderemos nossa análise do sexo nas diferentes visões de natureza para os projetos políticos e de sociedade presente em alguns discursos acerca da natureza , utilizando assim a mesma bióloga , Joan Roughgarden, em comparação com Kropotkin que apresentam visões semelhantes da natureza como solidária, portanto progressista e igualitária ,em contraposição as visões de competitividade e predominância do mais apto e forte presentes nas teorias evolutivas baseadas na seleção sexual e no gene egoísta .

              Estabelecer similitudes ou diferenças entre homens e animais, conectá-los ou distância-los é uma operação simbólica já muito notada por antropólogos, historiados e sociólogos.Apenas a titulo de referência sobre o assunto podemos citar Edmund Leach, que observou essa transferência classificatória do mundo animal para o mundo da linguagem humana através de sua clássica analise “dos insultos verbais e categorias animais”. Mas colocar categorias no domínio da natureza, muita das vezes, é uma forma muito eficaz de se produzir política, legitimidades, sendo que os entremeios entre natureza e cultura estão saturados de poder. O racismo e o sexismo são exemplares deste movimento direcionado para a política através da legitimação via uma suposta natureza. Muitos dos insultos verbais dirigidos as mulheres de modo pejorativo passam por uma conexão animal (galinha, cadela, etc.), ou seja, à uma imputação de uma animalidade. Aliás, há uma atribuição corrente da aproximação da mulher com a natureza, o mundo animal, como sendo predominantemente regidas por regimes naturais em contraposição a racionalidade.[1]

         Keith Thomas, em “o homem e o mundo natural”, observa este fato ao reconstituir historicamente as percepções histórico-culturais em torno dos animais e plantas, onde num momento de extremo antropocentrismo verificou-se a construção da categoria animalidade que como constructo negativo era atribuído aos homens considerados inferiores, incluindo aí negros, povos indígenas, mulheres, loucos, crianças, pobres e assim por diante. Sendo que tal atribuição era uma fonte legitimadora de praticas desumana simétrica as praticas amplamente aceitas de abusos contra os animais.

            “Os sentimentos para com os animais, dizem os antropólogos, em geral são projeção de atitudes diante do homem." Na Inglaterra do princípio da era moderna, o valor oficialmente atribuído aos ani­mais era negativo, ajudando a definir, por contraste, o que suposta­mente distinguia ou exaltava a espécie humana. Ao encarnar a antítese de tudo o que era valioso e valorizado, a idéia que se tinha dos seres brutos constituía um aval tão indispensável para os valores humanos estabelecidos quanto às noções igualmente absurdas então sustentadas a respeito das feiticeiras ou dos papistas. "O sentido de ordem" foi dito corretamente, "somente podia ser apreendido pela exploração de sua antítese ou 'contrário' (...) No entanto, não havia muita justificação objetiva para o modo pelo qual os animais eram percebidos. "Bêbado como uma cabra", ** dizia o provérbio. Mas quem jamais viu uma cabra bêbada? (30) O homem atribuía aos animais os impulsos da natureza que mais te­mia em si mesmo ‑ a ferocidade, a gula, a sexualidade - mesmo sendo o homem, e não os animais, quem guerreava a sua própria espécie, comia mais do que devia e era sexualmente ativo durante todo o ano. Foi enquanto um comentário implícito, sobre a natureza humana que se delineou o conceito de "animalidade". Como obser­varia S. T. Coleridge, chamar os vícios humanos de "bestiais" era difamar os seres brutos. ”(...). Uma vez percebidas como bestas, as pessoas eram passíveis de serem tratadas como tais. A ética da dominação humana removia os animais da esfera de preocupação do homem. Mas também legitimava os maus‑tratos àqueles que supostamente viviam uma condição animal. Nas colônias, a escravidão, com seus mercados, as mar­cas feitas a ferro em brasa e o trabalho de sol a sol, constituía uma das formas de tratar os homens vistos como bestiais. Segundo o relato de um viajante inglês, os portugueses marcavam os escravos "como fa­zemos com as ovelhas, a ferro quente" e no mercado de escravos de Constantinopla, Fynes Moryson viu os compradores levarem as peças para dentro para examiná‑las sem roupa, tocando‑as "como apalpamos os bichos, a fim de conferir se eram gordos ou fortes". (10) Davam‑se aos escravos, com freqüência, nomes típicos de cães e cavalos. (21) Um ourives londrino do século XVIII anunciava ‑cadeados de prata para pretos ou cachorros"; os anúncios ingleses de negros fu­gidos mostram que amiúde eles traziam argolas em torno do pes­coço. (22) Os historiadores consideram atualmente que a escravidão negra precedeu as afirmações da condição semi-animal dos negros. As teorias mais desenvolvidas de inferioridade racial vieram depois.(...) (23 Entretanto, é difícil crer que o sistema jamais tivesse sido tolerado se aos negros fossem, atribuídos traços totalmente humanos. A sua desumanização foi um pré‑requisito necessário dos maus ­tratos.*Keith,Thomas.O homem e o mundo natural.São Paulo , Companhia das letras , 1998.

               Através da analise historiográfica de Thomas podemos dizer que as relações entre os homens e animais/plantas, inclusive as relações classificatórias, variam no tempo e no espaço.E , assim sendo, mesmo dentro de um paradigma dominante que guia as percepções em torno do mundo natural em geral  há sempre visões dissidentes e de questionamento da ordem, ou seja, os discursos sobre a natureza estão sempre em disputa, em discussão e à disposição de projetos de poder. Por esta razão, podemos dizer que o próprio texto do autor, descontínuo quanto aos argumentos, se aproxima daquilo que Foucault chamou de crítica genealógica, onde os discursos em torno de determinado assunto, mesmos os de menos visibilidade, são analisados como frutos de projetos de poderes em disputa.Tendo isto em vista, podemos resumir os períodos nas qual Thomas Keith analise a relação homem-natureza circunscrito ao território inglês em dois paradigmas dominantes, um profundamente antropocêntrico e desdenhoso quanto ao sofrimento animal e a beleza da natureza por si mesma, e outro período onde a fronteira entre homens e animais é posta em questão e a crueldade para com os animais é profundamente questionada.

           No primeiro período o antropocentrismo dominante é fruto da preocupação teológica católica em afirmar superioridade humana em razão da alma como exclusivo humano, bem como a preocupação moderna de domínio produtivo sobre a natureza .Por fim como já dito, esta distância caractetistica deste paradigma antropocêntrico ocidental católico serviu como legitimador da exploração do outro humano inferiorizado através da categoria da animalidade. Por outro lado ,o segundo grande paradigma emerge da teologia protestante da ascese onde a diversão como o sofrimento alheio é condenável, pois desumaniza o homem, e ainda é tributária da percepção romântica de culto a natureza decorrente do afastamento do homem comum da natureza em resultado da urbanização. Por fim, podemos inferir indiretamente do livro que a emergência dos anteriores “humanos inferiores” como sujeito de direito caminhou lado a lado com a crítica da crueldade para com os animais ,o utilitarista Bentham , por exemplo , cria a sua máxima pró–sufrágio universal, de que uma sociedade justa é aquela que evita a dor e promove o prazer da maioria , ao mesmo tempo que militava contra a crueldade para com os animais questionando o paradigma anterior como uma frase que ser tornou célebre “não quero saber se eles tem alma , quero saber se eles sentem dor” .Assim sendo , devemos ter em vista que estas explicações causais de Keith não esgotam em si mesmas , afinal estamos falando em discursos em disputa e o material do autor é sem duvida alguma um boa fonte para levantamento de questões em torno da classificação e mensurabilidade homem e natureza .Diante da analise que este artigo propõe tenhamos em vista esta correlação classificatória que joga os grupos marginalizados da sociedade , o outro inferiorizado, para o domínio da natureza no sentido da idéia de animalidade , o sexismo, por exemplo , fez e ainda faz esta correlação da mulher como estando mais próxima da natureza no sentido negativo.

          “Também as mulheres estavam perto do estado animal. Du­rante vários séculos os teólogos tinham discutido, em parte frívola, em parte seriamente, se o sexo feminino tinha alma ou não, debate que acompanhava de perto a polêmica sobre os animais e que, às vezes, produzia ecos no nível popular. Em Witley in Surrey, em 1570, um certo Nicholas Woodies teria afirmado que as mulheres não tinham alma; em Earls Colne, Essex, em 1588, o próprio minis­tro disse o mesmo; e na diocese de Peterborough, em 1614, soube‑se de um indivíduo espirituoso, que "sustentava aberta e obstinada­mente que as mulheres não tinham alma, exceto as [solas] de seus sapatos". ** O quacre George Fox encontrou um grupo de pessoas que sustentava que as mulheres "não tinham mais alma que os gansos". (10) Os ginecologistas da época davam muita ênfase aos aspectos animais do parto. Era comum referir‑se a uma mulher grávida como "procriando"; um clérigo do período anterior à Guerra Civil compa­rava, no púlpito, as mulheres às porcas. Certos puritanos inimigos dos rituais realizados após o nascimento *** às vezes faziam o mesmo, referindo‑se à mãe como uma porca seguida pelos bacorinhos. (11) Até o século XVIII, o ato de amamentar os bebês costumava ser visto pelas classes superiores como uma atividade degradante, a ser evi­tada quando possível, confiando‑se os recém‑nascidos aos cuidados de amas‑de‑leite. Jane Austen alinhava‑se numa longa tradição ao descrever as pessoas de seu sexo como "pobres animais" consumidos por partos todos os anos. (12)”

        Se desumanizar via a atribuição de uma animalidade é uma forma de legitimação de práticas desumanas e exclusão, encontrar nos seres humanos uma essência natural ultima também pode ser um outro aspecto da transferência da cultura a natureza.Sendo assim encontrar uma essência“ homem animal” também é uma forma de legitimação política, o racismo científico é dos maiores exemplo deste caso. Neste caso as diferenças sociais foram postas pela via cientifica como diferenças naturais , numa falsa medida de gradação de seres humanos que iria de um negro inferior a um branco superior. Sthepen Jay Gold, em “falsa medida do homem” analisa as várias vertentes da teoria racialista, suas conexões com o racismo e o imperialismo, bem como as fraudes e erros inconscientes de cálculo da craneologia e frenologia.

       Tendo isto em vista , podemos afirmar que se no passado “a falsa medida do homem” estava nos tamanho dos crânios hoje ameaça através dos genes, da observação da atividade cerebral, das geografias dos cérebros de homens e mulheres, nas químicas corporais e assim por diante, aliás como contra-resposta as novas perspectivas é que Jay Gold escreve seu livro.A biologia hoje vive um intenso debate político e há um intenso intercâmbio de idéias entre as ciências humanas e biológicas relativo às possibilidades teóricas e políticas que surgem do confronto epistemológico entre natureza e cultura.A sociolobiologia e psicologia evolutiva vierem com a promessa de encontrar as conexões entre o homem como ser biológico e o homem social , mas também vieram como ameaça pois suscitou o determinismo biológico enquanto possibilidade o que assustou a teoria social que em grande medida já havia feito a opção histórica pelo construtivismo .E se hoje o conceito de raça já não é mais aceitável do ponto de vista lógico, o conceito de “sexo” é a categoria em disputa na contemporaneidade, sendo assim, a saída epistemológica seria negá-la, apresentá-la como constructo socio-político, ou buscar nela a substancialidade natural definitiva?

        Os grupos que se opõem as demandas de visibilidade e direitos para os homossexuais, por exemplo, buscam sua legitimação numa suposta natureza que segundo eles é heterossexual, pois os corpos foram criados tão somente para a reprodução. Um discurso que apela muita das vezes a natureza e a família , bem como uma correta demarcação dos papéis de gênero. A citada canção se tornou praticamente um hino dos grupos conservadores do Brasil que buscam pela não aprovação da PL122 que criminaliza a homofobia.

        “Quando o senhor criou o céu e a terra ele tambem criou o reino animal/de toda especie que existe nesse mundo para que fosse fecundo o senhor criou um casal/somente o homem era quem vivia sozinho sem amor e sem carinho sendo formado do pó,mas o senhor resolveu mudar o tom/dizendo assim não é bom que o homem viva só/Do próprio homem ele tirou uma costela fez uma mulher tao bela e foi uma maravilha/ e ordenou Crescei e multiiplicai e o homem tornou-se pai /houve a primeira familia,mas o diabo o inimigo de Deus pra desfazer os planos seus,querendo manchar seu nome/desde o dia da cidade de sodoma,resolveu mudar a soma,casando homem com homem..A cada dia Multiplica a Iniquidade /sinceramente isso me deixa pensativo/ se Deus tivesse Feito Homem Pra casar Com outro Não seria ADAO E EVA? Tinha Feito ADAO E IVO”.Extraido da música “Adão e Ivo”, composição de Toninho de Aripipú.

         Outro exemplo a ser citado destas disputas em torno da natureza do sexo e da construtividade do genêro é  relativa as afirmações de que  as hierarquias, diferenças comportamentais ou de preferências de gênero são justificadas por supostas causas naturais, que passam, por exemplo, por um cérebro feminino, distinto de um masculino, tanto na visão popular como em visões supostamente científicas que apelam para a geografia dos cérebros, genes e hormônios[2]. A expectativa do gene gay, por exemplo, não se sabe se é uma ameaça ou uma dádiva futura ao mesmo tempo.

       A idéia inicial de que sexo se referia à anatomia e fisiologia dos corpos deixava o caminho aberto para interpretações de que as diferenças entre mulheres e homens no domínio cognitivo e comportamental, bem como as desigualdades sociais, poderiam decorrer de diferenças sexuais localizadas no cérebro, nos genes ou provocadas por hormônios etc. Parafazer frente a esse problema, muitos estudos feministas foram assinalando que as afirmações das ciências biológicas sobre os corpos femininos e masculinos (tanto no passado quanto no presente) não podem ser tomadas como espelho da natureza porque as ciências, como qualquer outro empreendimento humano, estão impregnada pelos valores de seu tempo.

“(...) Uma biologia do que significa ser gay (New York Times); Zona do cérebro é ligada à orientação sexual dos homens

(New York Times); O que torna as pessoas homossexuais? Um estudo aponta diferença no cérebro (Newsweek); Os gays nascem gays?(Time)

(...)

        Tantas são as objeções apresentadas pelos estudos feministas de ciência à sociobiologia que esses podem compor até uma bibliografia específica. Mas a saraivada de críticas não impede o reconhecimento de que a sociobiologia, desde os anos 70, inspirou estudos cuidadosos e úteis. E também não impede a ira feminista ante o sucesso de mídia que esse ramo das ciências naturais alcançou ao inspirar manchetes sensacionalistas como o selecionado por Nelkin: Machismo tem bases biológicas e diz: “Eu tenho bons genes, deixe-me reproduzir” (Time); Se pegarem você dando suas voltinhas, não diga que é culpa do diabo. É seu DNA (Playboy); Estupro: geneticamente programado no comportamento masculino (Science Digest); Os homens são geneticamente mais agressivos porque são mais indispensáveis (Newsweek).” Maria Teresa Citeli Fazendo diferenças: teorias sobre gênero, corpo e comportamento.ESTUDOS FEMINISTA. 1/2001.

          Porem não somente do lado “conservador” a natureza é arregimentada para fins políticos o lado progressista também o faz. A “ajuda mútua” de Kropotkin é paradigmática neste caso, pois nesta obra do século XIX claramente a visão da “natureza” que o autor nos apresentava estava atrelada ao projeto político anarquista e a uma posição política de negação do cânone dominante na época que era o do Darwinismo social.Como estamos focando nossa análise na questão de sexualidade podemos citar o exemplo contemporâneo de Joan Roughgarden , que aliás sua obra possui similitudes com a de Kropotkin , e sua tese consiste na afirmação estratégica do ponto de vista político que na natureza há comportamentos homossexuais , que isto é positivo e que a teoria evolucionista tradicional não consegue explicar tais fatos. Analisaremos mais adiante, “Evolution's rainbow: diversity, gender, and sexuality in nature and people”, e “The genial gene”, de Roughgarden, bem como suas conexões e similutudes com a visão de natureza presente em a “ajuda mútua”, um exercício analítico válido para se pensar as conexões entre política e natureza. Enfim , diante deste exemplos vemos que transferir , colocar na natureza é uma fonte de legitimação , deste modo ,o homem político e social busca legitimidades políticas em um homem/animal natural.

                    

                         O sexo dos homens.

            Como estamos lidando com um amontoado de classificações em torno da sexualidade humana esta analise partirá de pressupostos em torno do que é o sexo, o gênero e a orientação do desejo humano, afinal estas categorias se misturam no âmbito das disputas em torno da sexualidade humana. Sendo assim ,é mais consenso nas teorias acerca do gênero , que o sexo é uma base corporal , fisiológica , sobre a qual se constrói o gênero, aliás alguns autores denunciam o caráter construtivo desta categoria , veremos logo à frente as posições de J.Butler e Anne Fausto Sterling como exemplos. O gênero, por sua vez, seria o “tornar-se mulher”, ou torna-se homem, ou seja, uma serie de comportamentos aprendidos e inculcados ao longo da vida que nos coloca como homem ou como mulher, como por exemplo, vestir-se de vestido ou brincar de carrinhos. O gênero é uma identidade .Se o gênero é um construto sobre o corpo natural ele pode não corresponder a uma continuidade , enfim um sujeito dotado de sexo masculino pode se sentir “mulher”.A orientação do desejo corresponde ao nosso direcionamento dos afetos e dos prazeres sexuais a um outro , ela pode ser heterossexual , homo sexual ou bissexual.A norma social, ou o que aqui chamaremos de heterossexualidade compulsória estabelece uma continuidade obrigatória entre estas categorias , o que no entanto não se verifica na pratica onde as descontinuidades acontecem, sendo que o social é o reino da diversidade , e cada vez mais tais descontinuidades ou dissidências ganham visibilidade e legitimidade política.

            O estruturalismo Francês ,por intermédio da figura de Lévi-Strauss ,fez uma ponte entre as questões relativas à natureza e cultura, levando em conta a dimensão da natureza no estabelecimento da cultura por intermédio do disciplinar da sexualidade. A teoria de Lévi-Strauss fez uma conexão lógica entre o sexo dos animais e o “sexo” dos homens , que nada mais é que o parentesco. O parentesco, deste modo, é um espaço analítico fundamental, ele segundo o autor é fruto do disciplinar dos corpos naturais através da regra universal da proibição do incesto, estabelecendo assim um sistema social de aliança que visa às trocas simbólicos entre as diferentes unidades “familiares” , fundando assim a cultura.

           Porem o fato da “troca ser de mulheres” incomodou amplamente as feministas, que literalmente ficaram, e ainda ficam com a “pulga atrás da orelha”. A troca é de mulheres, e, portanto estas são o objeto da relação de troca, não o sujeito da troca, que é homem, sendo assim, a teoria do parentesco pode ser uma teoria sobre a condição feminina. Obviamente a inversão da troca também é logicamente possível , mas a questão que se colocou era se o exemplo era uma expressão “machista” de Lévi-Strauss ou uma verificação empírica da troca de mulheres generalizado nos diferentes sistemas de parentesco.Gayle Rubin toma a tese das “formas elementares” como insumo para elaboração de seu artigo “The Traffic of woman” considerando Lévi-Strauss machista por não considerar as implicações de violência simbólica que é a troca de mulheres , mas também considerou a troca de mulheres como uma realidade nos sistemas de parentesco.

No artigo ela propõe uma ruptura com o paradigma marxista-feminista centrada nas conclusões de Engels[3], assumindo que a tese da exploração feminina pela via dos modos de produção era insuficiente e talvez politicamente duvidosa e a tese estruturalista parecia abordar melhor e de modo universal o problema. O problema feminino para Rubin começa então no próprio parentesco , onde o “pai concede a mão da filha”, as mulheres são objetos de troca e portanto não são os sujeitos de direito nesta relação , deste modo , o corpo feminino é  apropriado para fins da descendência e da aliança.Para que tal apropriação aconteça é necessário subjugar e transformar a mulher em um objeto passível da troca , ou seja , o parentesco como troca de mulheres, marco inicial da cultura, precisa estabelecer a hierarquia de gênero.

          “The relation of such a system are such that women are in no position to realize de benefits of their own circulation .As long as relation specify that men exchange woman, it is man who are beneficiaries of the product of such exchange –social organization (…) In this sense, the exchange of women is a profound perception of a system which women do not have full rights of themselves”.Rubin , Gayle. The Traffic of woman . In Feminist Anthropology , a reader .Org.Ellen Lewin,Blackwell publishing , 2006.

         Se no ventre que a reprodução da sociedade acontece, tanto o sentido da aliança quanto no da descendência, é preciso subjugá-lo, pois é uma fonte de poder, e além do mais ele tem que servir exclusivamente a reprodução, para Rubin o parentesco funda não só o gênero como categoria hieraquizadora, mas também a heterossexualidade compulsória. Para que esta subjugação aconteça é necessário construir diferenças naturalizadas entre homens e mulheres , sendo este o papel da divisão sexual do trabalho nos termos de Gaylen Rubin ,uma vez que tal divisão ,com arranjos variáveis nas mais diversas sociedades ,é um taboo dividindo os sexos em duas categorias mutuamente exclusivas ,ela cria o gênero, permite uma performance de gênero se usarmos os termos de Judith Bulter, naturalizando as diferenças e assimetrias .

            “Far from being an expression of natural differences ,exclusive gender identities are the suppression of natural similaritys.It requires repressions :in men of whatever local version of feminine traits, and woman , of local definition of masculine traits”.The Traffic of woman . In Feminist Anthropology , a reader .Org.Ellen Lewin,Blackwell publishing , 2006.

            Demarcado dois como únicos possíveis também o parentesco via casamento somente pode se realizar via heterossexualidade compulsória. Alias a homossexualidade masculina e até possível logicamente nos arranjos de parentesco , mas a homossexualidade feminina é uma abominação simbólica , pois subverte tanto as hierarquias do gênero quanto a heterossexualidade compulsória do parentesco fundamentado na obrigatoriedade da reprodução, segundo a autora.

           “Levi-Strauss come dangerously close to saying that heterosexuality is an instituted processes (...)moreover the incest taboo presupposes a prior , less articulate taboo against no-heterosexual unions .Gender is not only a identification with one sex ;it also entails that sexual desire be direct toward the other sex (…)The suppression of homosexual component of human sexuality ,and by corollary, the oppression of homosexual , is therefore a product of the same system whose roles and oppression woman.

(...)One last generality could be predict as a consequence of the exchange of woman under a system in which rights to woman are held by man .What would happen with a hypothetical woman not only refuse the man to whom she was promised ,but asked for a woman instead ? If a single refusal were disruptive , a double refusal would be insurrectionary.” The Traffic of woman . In Feminist Anthropology , a reader .Org.Ellen Lewin,Blackwell publishing , 2006.

           A leitura de Rubin sobre o parentesco extrai suas conclusões de Lévi-Strauss e Freud, se aproximando as conclusões de Monique Wittig (inclusive um dos subtítulos do “traffic” é “vile and precious menchandise-Monique Wittig”) .Para Monique Witting, a própria categoria sexo é uma construção naturalizadora das diferenças que tem como função subjugar a mulher dentro do esquema assimétrico da heterossexualidade compulsória, que implica no casamento e na reprodução obrigatória.

           Por outro lado, podemos continuar a discussão deste emblógio da natureza do sexo atráves do esquema teórico de Judith Butler, sendo que esta autora, em “Problemas de Gênero, feminismo e subversão da identidade”, afirma categoricamente que o sexo é uma idéia em disputa, um constructo imerso em contexto de poder e de dominação, tal construto tem como função estabelecer uma heterosexualidade compulsória bem como hierarquias de gênero. Sua tese assume os pressupostos teóricos e metodológicos de Foucault , partindo das análises deste autor que afirma que os discursos acerca da sexualidade estão imersos em discursos correlacionados a projetos de poder.Em Rubin , então , a dominação seria estrutural , em Butler a dominação é constantemente estruturada por discursos a serviço de projetos de poder , bem com as identidades que compõem este sistema .Para ela não existe uma base fixa , natural ,uma substância fora da cultura que possa ser convocada para justificar as praticas do gênero .Por esta razão o gênero é performático , pois não está assentado em base fixa , substancial .Esta base está em constante busca de sua afirmação como real , seja pelos mecanismos classificatórios da ciência ou através da performatividade do gênero .

       “Os vários atos de gênero, criam a idéia de gênero, e sem estes atos, não haveria gênero algum (...). Assim o gênero é uma construção que oculta normalmente sua gênese; o acordo tácito de exercer produzir e sustentar gêneros distintos e polarizados como ficções culturais é obscurecido pela credibilidade dessas produções –e pelas punições que penalizam a recusa de acreditar neles ; a construção obriga a crença em sua necessidade e naturalidade”.BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo e subversão da identidade .Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.   

           Performatividade está que pode ser subvertida pela performance de gêneros dissidentes, a Drag é exemplar ao literalmente “brincar” com a performance de gênero mostrando sua contingência.

          “Ao imitar o gênero, o drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero. Assim como sua contingência (...). No lugar da lei da coerência heterossexual vemos o sexo e o gênero desnaturalizados por meio de uma performance que confessa sua distinção e dramatiza o mecanismo cultural de sua unidade fabricada.”BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo e subversão da identidade .Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003

           Interessa-nos aqui os sistemas classificatórios científicos para os fins desta analise, sendo que uma das bibliografias de Judith Butler é a bióloga Anne Fausto Sterling .Um dos pontos centrais das teses de Anne-Fausto é que a natureza é mais diversa do que a cultura sexista pode imaginar, um dos seus artigos famosos intitula-se “os cinco sexos, por que macho e fêmea não são o bastante” demonstrando que a classificação científica obedece às lógicas sociais na qual o cientista se insere. Deste modo macho e fêmea não são categorias neutras , bem como XX e XY , ou ainda as supostas diferenças entre as geografias do cérebro de homens e mulheres .Estes contextos de poder produzem por sua vez toda uma tecnologia de manipulação dos corpos afim de enquadrá-los na expectativa social .Anne Fausto Sterling traz exemplos do controle pré natal intensivo para o não nascimento de intersexuais , ou ainda a pratica medica corrente da cirurgia do sexo no recém-nascido mesmo que ainda seus resultados não possam vir a ser saudáveis do ponto de vista fisiológico e psíquico.

        “O tratamento da intersexualidade neste século fornece um belo exemplo do que o historiador francês Michel Foucault chamou de biopoder. Os conhecimentos desenvolvidos em bioquímica, embriologia, endocrinologia, psicologia e cirurgia deram aos médicos o controle sobre o sexo do corpo humano. As múltiplas contradições neste tipo de poder requerem certo escrutínio. Por um lado, o “tratamento” médico da intersexualidade foi certamente desenvolvido como parte de uma tentativa de libertar as pessoas de uma dor psicológica presumida (embora não fique evidente se a dor é da paciente, dos pais ou do médico). E se aceitamos o princípio de que em uma cultura divida pelo sexo, as pessoas só conseguem realizar seu maior potencial de felicidade e de produtividade se tiverem a certeza de pertencer a um de apenas dois sexos conhecidos, então devemos reconhecer que a medicina moderna tem sido extremamente bem sucedida (...). As respostas parecem residir numa necessidade cultural de manter distinções bem marcadas entre os sexos. A sociedade dita o controle dos corpos intersexuais porque eles borram a diferença e conectam a grande divisão dos sexos. Na medida em que hermafroditas literalmente incorporam ambos os sexos, eles desafiam crenças tradicionais sobre diferença sexual: eles possuem a habilidade irritante de viver às vezes como um sexo e, outras vezes, como outro, e eles levantam o espectro da homossexualidade.” Anne Fausto- Sterling. Os cinco sexos: porque macho e fêmea não são o bastante.

           “Um dos exemplos mais notáveis da naturalização dos processos de construção da identidade decorrentes da repetição das normas constitutivas seria a interpelação médica. Nesse caso, através do procedimento da ultra-sonografia, transforma-se o "bebê" antes mesmo de nascer em "ele" ou "ela", na medida em que se torna possível um enunciado performativo do tipo: "é uma menina"! A partir desta nomeação, a menina é "feminizada" e, com isso, inserida nos domínios inteligíveis da linguagem e do parentesco através da determinação de seu sexo. Entretanto, essa "feminização" da menina não adquire uma significação estável e permanente. Ao contrário, essa interpelação terá que ser reiterada através do tempo com o intuito de reforçar esse efeito naturalizante (O gênero é uma performance, e tem que ser representado, atuado, como um personagem de teatro). Certamente seria estranho, diante da imagem de um bebê numa ultra-sonografia, afirmar que "se trata de uma lésbica". Como este enunciado não faz parte de nossa inteligibilidade cultural, ele serve antes de tudo para demonstrar de maneira muito precisa como o ato de nomear é, ao mesmo tempo, a repetição de uma norma e o estabelecimento de uma fronteira.” Márcia AránI; Carlos Augusto Peixoto Júnior .Subversões do desejo: sobre gênero e subjetividade em Judith Butler .Cadernos Pagu  no.28 Campinas Jan./June 2007.

          Podemos retirar então de Butler, Anne Fausto-Sterling, Lévi-Strauss via Gayle Rubin e Monique Witting que a idéia de uma natureza sexual humana ultima é um constructo que opera em prol da normatividade heterossexual, para os três últimos autores da normatividade heterossexual do parentesco. Obviamente há diferenças conceituais entre os autores, mas a idéia básica da “natureza” como operador de poder fica explicito em todos.Como titulo do nosso artigo sugere há o sexo dos animais e o “sexo” dos homens , entre aspas .Aliás J.Butler nos alerta quanto à impossibilidade lógica de fundamentar o “ser gay” na natureza , bem como “ser hetero” , a substância do “sexo” não existe , não está em uma natureza metafísica ,a idéia de sexualidade é fruto de contextos de poder , de significações no interior da cultura , não havendo, assim , o sexo como uma base corpórea bem demarcada , e o gênero justamente por flutuar no que está em disputa necessita da performatividade .

             Mas depois desta incursão ao sexo humano voltemos aos animais. Quando Joan Roughgarden ,que já foi um “ele” , pois ela é um transgênero, diz que a “natureza é gay” , mesmo deslocando categorias bem definidas nos estudos feministas como gênero e orientação do desejo para realizar tal empreendimento , ela acaba colocando indiretamente em questão se o modo pela qual classificamos os animais/plantas sexuadas não estaríamos deslocando , inclusive politicamente , categorias sociais/heterossexuais compulsórias para a “natureza”.Ou seja , se há mesmo na suposta natureza uma dificuldade em atribuir uma categoria universal que demarcasse macho e fêmea porque há a busca incessante desta classificação? A tese que ela acaba colocando é que “a natureza sexuada” enquanto sistema classificatório não é um neutro científico, portanto guiado pelo sistemas social/humano da heterossexualidade compulsória (macho e fêmea) e a hierarquia dos gêneros (macho ativo, fêmea passiva).

       Bruno Latour constrói um corpo teórico interessante para o trato de nossa questão. O autor propõe uma antropologia simétrica onde humanos e não-humanos sejam analisados em um mesmo plano no exame da construção dos fatos científicos , pois a natureza separada da cultura é uma construção política da modernidade , que teve como fim distanciar simbolicamente a natureza da política atribuindo a primeira uma legitimidade epistemológica incomparável .Sendo assim , a “natureza” faz a política das políticas pois seu poder não é questionável , afinal é supostamente neutro .Latour insiste para deslocarmos nosso olhar da “Ciência” já consolidada para aquela “ciência” vacilante da pesquisa e assim verificaremos as conexões entre humanos e não humanos na produção dos fatos ,bem como as negociações políticos sociais por detrás da construção do fato científico .O conceito de “hibrido”, seres inseridos na produção cientifica mas que não conseguem ser classificados como pertencentes à cultura ou a natureza , são fundamentais analiticamente , pois questionam por sua própria existência a separação estanque entre natureza e cultura .A questão fundamental que emerge confrontando Latour com as colocações científicas e abertamente políticas de Roughgarden é se os animais/plantas sexuadas não seriam um tipo de híbrido conceitual , não os animais como coisa em si tal como é um Chester , mas se os sistemas classificatórios da sexualidade animal não seriam híbridos dentro desta perspectiva crítica?

O sexo dos animais :“Evolution's rainbow: diversity, gender, and sexuality in nature and people”.

Dos híbridos de Rougharden em debate com os híbridos de Darwin/Dawkins.

          Rougharden nasceu com um corpo masculino se graduou e pós graduou-se em ciências biológicas e se tornou um respeitado professor/pesquisador de Standford, porem não se sentia a vontade com o corpo de “homem” e foi gradualmente se transformando em mulher, até a solução definitiva da troca de sexo ao 52 anos. Jonathan virou Joan .A troca de sexo levou a troca de objetos , trocou muito dos seu objetos científicos de outrora que focava questões ecológicas atreladas às teorias de escolha racional para a questão do “sexo dos homens e dos animais”.Afim de fazer política-ciência abertamente , cria teorias criticas das concepções de natureza ,evolução e sexo existentes. Se ele publicava livros tais como “Primer of ecological theory”, ela começou a publicar títulos tais como The Genial Gene: Deconstructing Darwinian Selfishness, Evolution's Rainbow: Diversity, Gender and Sexuality in Nature and People, Evolution and “Christian Faith: Reflections of an Evolutionary Biologist”. Nestes novos livros atacou os conservadores em seus clássicos pontos de apoio, a religião e a “natureza”, pois além de bióloga Joan é uma mulher religiosa.

         Já na introdução de “evolution rainbown” lembra aos leitores que o livro é um tipo diferente da clássica produção textual cientifica fria e neutra, o livro é um “trade book” no linguajar dos editores que se caracteriza como estilo literário por se direcionar para um público amplo e o autor fica livre para emitir opiniões e escrever numa linguagem mais coloquial. Ela assim não nega sua posição política , bem como as conexões que a política estabelece com a ciência , nesse empreendimento de crítica e denúncia que caracterizam seus novos livros, o que a torna suspeita para alguns membros do campo da ciência .

              “Roughgarden embarrasses herself and decides to abandon her former role as a scientist in favor of becoming a politically correct activist. This book has one huge, massive, fundamental flaw: It is not science, but it is presented as such. The real scientific method goes something like this: accumulate data, observations, and facts, then formulate a theory that best explains them. Roughgarden does the opposite: she starts with a theory already in mind, and then seeks out facts to support it. That is not the way to the truth -- it's just a form of narcissistic self-congratulation. I've spoken to many scientists in the biological sciences, and every single one of them dismisses this book out of hand as a joke. It has nothing to do with real science, they say -- it's just someone making a personal statement. By ignoring or abandoning the basic scientific method, Roughgarden has declared what side she's on: politics over truth. Activism over science.”retirado de : http://www.transgendercare.com/bookreviews/gender_identity/evolutions-rainbow.htm

 

          O livro “Evolutions Rainbowns” para Roughgarden se caracteriza como uma memória da viagem dela pelo espaço acadêmico da ecologia e da evolução, bem como da antropologia, sociologia e teologia, em busca de respostas em torno das diversidades do sexo. Por fim , admite que suas teses não são descobertas excepcionais , são frutos apenas de um olhar diverso para a diversidade , acusando a ciência de historicamente negar tais diversidades atráves de um olhar heterocêntrico . E ainda ela acrescenta que não está argumentando em favor da natureza como normatividade. Segundo Roughgarden não há a pretensão em seu trabalho em confundir fato com valor , se fosse assim ela diria que o infantício é bom pois acontece comunentemente na natureza .No entanto , para ela a variação de gênero e a homossexualidade acontece na natureza e não há nada de errado em acontecer entre os homens, o que é moralmente condenável é a homofobia.

 

        I increasingly wondered why we didn’t an already know about nature wonderfully diversity in gender and sexuality I came to see the book mains message of the indictment of academia from suppressing and denied diversity. I now conclude that all our academic disciplines should go back to school ,take refreshers courses in their own primary data ,and emerge with a reformed ,enlarged ,and more accurate concept of diversityRoughgarden ,Joan. Evolution rainbows ,diversity , gender and sexuality in nature and people. University of California press,2004.pg.3 .

              No primeiro capitulo o livro começa suas discussões em torno de quanto o “sexo” e a “diversidade” é importante para a evolução e longevidade de uma espécie ,pois do ponto vista biológico a reprodução sexuada permite a mistura do genes ,ou seja, uma maior diversidade , ao contrário da reprodução assexuada que é apenas clonagem natural.O segundo capitulo intitulado “sex versus gender” , Roughgarden propõe um exercício classificatório do que seria sexo ,do que seria macho e fêmea e do que seria “gênero”.

         “Para muitas pessoas sexo implica automaticamente em macho ou fêmea. Não para um biólogo. Como vimos no ultimo capitulo sexo significa misturar genes quando reproduzimos. Reprodução sexuada é produzir prole misturando o gene de dois pais, enquanto que a reprodução assexuada é produzir prole de um pai somente, é clonagem. A definição de reprodução sexuada faz nenhuma menção de macho ou fêmea. Então, o que macho e fêmea tem haver com sexo?”

Roughgarden ,Joan. Evolution rainbows ,diversity , gender and sexuality in nature and people. University of California press,2004.(tradução minha) pg22.

          A definição biológica (científica, neutra e universal) de “macho” ou “fêmea” é feita através do tamanho das gametas, que é uma característica mais ou menos universal nas espécies sexuadas, macho/gameta pequena e fêmea/gameta grande, afinal há espécies que não obedecem à lógica X/Y, esta é mais ou menos marcador dos mamíferos (há espécies, inclusive mamíferas, que não seguem a lógica); nos pássaros, nos répteis e nos anfíbios o cromossomo Y não ocorre. O tamanho da gameta funciona como marcado classificatório tanto no reino animal , quanto reino das plantas ,mas a definição macho com gameta pequena , fêmea com gameta grande , não funciona para algumas espécies , onde há o encontro de gametas do mesmo tamanho ou produção de gametas de tamanhos variados pelo mesmo indivíduo .Além desta definição gametóide das espécies sexuadas a autora nos lembra que nenhuma outra definição universal é possível , e o maior erro da biologia atual é assumir acriticamente que a definição binária de gametas corresponda á binários nas tipologias dos corpos , comportamentos e histórias de vida .O “gênero” , ao contrário das gametas não é limitado a dois , sendo que a autora desloca o conceito culturalista/construtivista de gênero como identidade para “gênero” como aparência ,os comportamentos e as histórias de vida de um corpo sexuado , ou seja , o “gênero” seria para ela aparência mais ação , enfim como um organismo usa sua morfologia ,incluindo cor e formato, mais o comportamento para realizar o papel do sexo.A partir disto Roughgarden desmente alguns mitos sobre o “sexo dos animais” , ou gênero se preferirmos. Muitos estereótipos podem ser quebrados se deixarmos de lado a visão humana binária. Na natureza pode haver, por exemplo, fêmeas com chifres masculinos , ou machos com listras femininas.

         “Um organismo é somente macho ou fêmea por toda vida. Não, o mais comum formato do corpo nas plantas e o provavelmente na metade do reino animal são do individuo que é macho e fêmea ao mesmo tempo, ou em diferentes períodos da vida. Estes indivíduos produzem ao mesmo tempo gametas grandes e pequenas ao longo da vida.

Machos são maiores que as fêmeas, na média. Não , em muitas espécies , especialmente de peixes , a fêmea é maior que o macho.

Fêmeas, e não machos, dão a luz. Não , em muitas espécies a fêmea deposita os ovos na bolsa do macho que incuba eles até o nascimento .Em muitas espécies , machos , não fêmeas fazem o ninho .

Machos tem cromossomos XY, e fêmeas tem cromossomos XX. Não nos pássaros , inclusive aves domésticas ,acontece o inverso.Em muitas espécies ,macho e fêmea mostram nenhuma diferença.Em todos os jacarés e crocodilos ,algumas tartarugas e lagartos, e ocasionalmente peixes o sexo é determinado pela temperatura que os ovos crescem .A fêmea pode controlar o “sex ratio” por intermédio de sua prole colocando ovos de sua prole num local de sol ou de sombra.

Apenas dois gêneros ocorrem, correspondendo a dois sexos. Não ,muitas espécies tem três ou mais gênero com indivíduos do mesmo sexo ocorrendo com duas ou mais formas .

Macho e fêmea são diferentes uns dos outros. Não , em muitas espécies, macho e fêmea são indistinguíveis .Em outras espécies, o macho ocorre em duas ou mais formas , uma das quais se assemelha a fêmea,enquanto que outros são diferentes da fêmea .

O macho tem o pênis e a fêmea tem a mama. Não , na “spotted” hiena , a fêmea tem um orgão sexual externo idêntico ao macho , e no morcego de fruta da Malásia e Borneo, os machos produzem leite nas suas glândulas mamárias .

Os machos controlam as fêmeas. Não , em algumas espécies as fêmeas controlam os machos, e em muitas o acasalamento entre a fêmea e a escolha do macho .As fêmeas podem ou não podem escolher o macho dominante.

As fêmeas preferem a monogamia e os machos jogar ao redor. Não , depende da espécie , um ou ambos os sexos preferem jogar ao redor .Monogamia para vida toda é raro , mesmo em espécies monogâmicas , fêmeas provavelmente iniciam divórcios para adquirir machos bem cotados.”Roughgarden ,Joan. Evolution rainbows ,diversity , gender and sexuality in nature and people. University of California press,2004.

pg. 29 , 28.

           No próximo capitulo intitulado, sexo com corpos, Joan nos apresenta o fato que hermafroditismo é muito comum na natureza, segundo Joan não deve ser assim tratado como uma anormalidade, e ainda machos e fêmeas podem trocar de sexo dependendo do contexto ecológico, seja uma vez na vida ou várias vezes ao dia. O capitulo 4,intitulado “sex roles”, Roughgarden identifica espécies onde o comportamento esperados culturalmente por nós para machos e fêmeas não são realizados , peixes/machos que são totalmente dependentes das fêmeas , cavalos-marinhos machos que são responsáveis pelo cuidado com a prole e assim por diante .Por fim o contato sexual homossexual esta presente no universo das espécies.

           “O biólogo americano Bruce Bagemihl catalogou mais de 300 espécies de vertebrados em que é freqüente o contato genital entre indivíduos do mesmo sexo. Talvez, com uma análise apurada, 10% desses casos sejam descartados. Mas o número ainda é expressivo demais para ser ignorado. Há relatos, por exemplo, de carneiros da montanha machos copulando entre si e de fêmeas lésbicas em famílias de pássaros catadores de ostras. Em algumas espécies de aves o homossexualismo é raro, correspondendo a algo entre 1% e 10% dos relacionamentos. Mas em espécies como os macacos bonobos, da África Central, o contato homossexual é tão ou mais comum que o heterossexual.” http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT656858-1664,00.html

         A conclusão deste amontoado de exemplos de variação de “gênero” (variação na tipologia dos corpos, comportamentos e histórias de vida) que não se encaixa em um binário universal é que a biologia, em especial a evolutiva, precisa ser revista, mais especificamente a teoria da seleção sexual de Charles Darwin que necessita ser abandonada. A teoria da seleção sexual é uma parte da teoria de evolução que visa explicar como os machos e fêmeas de uma mesma espécie se relacionam.A teoria da seleção sexual consiste no pressuposto que as fêmeas “passivas” escolhem machos ativos portadores “dos melhores genes”, eles as disputam com violência ou exibicionismo, a lá touros ou pavões, para mostrar tal superioridade genética ,exibindo assim sua vantagem evolutiva .Para Roughgarden a teoria é fruto do preconceito machista do século XIX e é cientificamente duvidosa , uma vez que uma série de machos cooperam entre si , a partir dela não há como explicar a homossexualidade entre animais e humanos usando a tese darwinista , e tal teoria desconhece o arco-íris da diversidade sexual tal como papéis sexuais ,troca de sexo e assim por diante.Concluindo ,segundo ela sua teoria é uma teoria heterodoxa pois sua posição social permite uma trato mais acurado das diversidades , enquanto as teorias amplamente aceitas estão ligadas a visões preconceituosas da realidade .

         “Um dos principais motivos é que, se você não for para o campo preparado para enxergar relações homossexuais, nem as perceberá. Elas podem acontecer embaixo de seu nariz. Em muitas espécies de pássaros e peixes não é fácil distinguir o macho da fêmea. Em geral, quando os pesquisadores observam um casal copulando, simplesmente assumem que são de sexos diferentes. Partem do princípio que o maior é o macho, o menor a fêmea. Poucos capturam o casal e examinam sua genitália. Dá trabalho e pode ferir os animais. Quase sempre, também, significa interferir no comportamento natural daquela espécie, atrapalhando anos de pesquisas. Além disso, apontar o homossexualismo animal significa correr o risco de perder verbas de instituições que financiam sua pesquisa ou ser ridicularizado pelos colegas.” http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT656858-1664,00.html

            No “gene genial” (2009), ela continua sua crítica a seleção sexual e a teoria da seleção social é apresentada como alternativa. Esta busca explicar uma lista de 26 fenômenos que não são explicados corretamente pela teoria contemporânea neo-darvinista da seleção sexual ,em especialmente o conceito de gene egoísta de Dawkins.Esta lista inclui fenômenos tais a reprodução sexual ,o binário esperma/ovo , os corpos de macho e fêmea , papéis de sexo , conflito sexual , monogamia , homossexualidade , cérebro humano , e assim por diante.Segundo a autora na teoria neo-darwninsta da seleção sexual o gene egoísta é um conceito explicativo central ,e nele está embutido o pressuposto de uma visão do comportamento natural como guiado pela individualidade e egoísmo .Por outro lado , a teoria da seleção social de Roughgarden pressupõe que o sucesso evolutivo está ligado ao trabalho de equipe , a honestidade e a qualidade genética das espécies.

          Como já haviam sido colocado anteriormente as posições conceituais de Roughgarden poderia ser analisada pelo corpo teórico de Bruno Latour, e ainda, correlacioná-los como a teoria feminista e Queer. A obra da bióloga construída pós-operatório advoga por uma ciência moralmente capaz de fazer política ,o que a fez ser duramente criticada por seus pares , que a acusaram dos mais diversos erros metodológicos mas principalmente de não ser neutra em sua análise .Bruno Lautor identifica esta presunção da ciência de construir um abismo entre natureza e cultura , natureza e política , o que a torna um poderoso instrumento de fazer a própria política .O pacto moderno tem a função de velar os entrepostos de poder existentes entre as categorias de natureza e cultura , a posição anti-ortodoxia de Joan ,que inclusive escreve trade books, acaba por denunciar esta relação.A natureza nela é claramente um objeto de militância o que também denuncia a “militância” das teses opostas , ou seja , se a tese de Roughgarden é de uma natureza multisexual pois ela é um transgênero , a tese de Darwin/Dawkins da seleção sexual pode ser claramente posicionada em uma colocação heterocêntrica do mundo natural, nas palavras de Joan no “machismo do século XIX” ,ou ainda , com dizem os críticos do “gene egoísta” ,numa visão liberal-burguesa da natureza baseada no individualismo .

            “Ora, no Ocidente, nos tomamos, ao longo dos tempos, os herdeiros de uma alegoria que definiu as relações da ciência e da sociedade: a da Caverna*, contada por Platão em A Republica.Não nos vamos perder nos dedalos da história da filosofia grega.Deste mito, bem conhecido, não queremos retirar senão as duas rupturas que permitirão dramatizar todas as virtudes que se poderiam esperar da Ciência. È da tirania do social, da vida publica, da política, dos sentimentos subjetivos, da agitação vulgar, em suma, da Caverna obscura, que a Filosofia e mais tarde o Sábio - devem afastar de si, se quiserem acender a verdade. Tal é, a partir deste mito, a primeira ruptura. Não existe nenhuma continuidade possível entre o mundo dos humanos e o acesso as verdades "não feitas pela mão do homem"(...) o Sábio, uma vez equipado de “leis não feitas pela mão do homem”, que ele acaba de contemplar, posto que soubesse atirar-se ao inferno do mundo social, pode voltar a Caverna a fim de por ai ordem, pelos resultados indiscutíveis que farão cessar o falatório indefinido dos ignorantes.(...)

             No mito original, como se sabe, o Filósofo não chega, senão com as mais extremas dificuldades, a quebrar as cadeias que o prendiam ao mundo obscuro, e então, ao preço de experiências esgotantes, ele retorna a Caverna, e seus antigos colegas detentos dão morte ao portador de boas novas. Ao longo dos séculos, graças a Deus, a sorte do Filósofo, que se torna Sábio, foi bastante melhorada... Importantes orçamentos, vastos laboratórios, imensas empresas, possantes equipamentos, permitem aos pesquisadores, hoje, ir e vir com toda segurança do mundo social aquele das idéias, e desta a Caverna obscura a qual eles vern trazer a luz. A porta estreita se tornou uma larga avenida.”Latour, Bruno. Políticas da natureza.Como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC, 2004.

 

             Lautor propõe uma antropologia simétrica, ou seja, que não divida natureza e cultura, pois esta divisão é inexistente e política na prática, observando na produção dos fatos científicos o papel de todos que compõem uma rede de relações, incluindo cientistas, instituições de financiamento, humanos e não-humanos e assim por diante. Os híbridos, por sua vez , são produtos da produção científica que ameaçam a divisão entre natureza e cultura própria da modernidade ocidental.

              O subtítulo sugere as classificações em torno da sexualidade animal como híbridos, e claro que aqui estamos deslocando um pouco o conceito. Os exemplo animais de Roughgarden seriam “híbridos conceituais” ,fruto em grande medida da atribuição de um novo atributo/conceito , o “gênero”, que aos olhos de um construtivista poderia estar entre uma natureza (já intermediada de conceitos) e uso cultural político das verificações empíricas.Mas novamente o tom insurgente das teses de Joan , permite a denúncia do outro .O que nós garante que a classificação da sexualidade animal não seria também um híbrido-conceitual nas teorias da evolução sexual?Melhor dizendo, os pressupostos da teoria da seleção sexual; que incluem a competição, o individualismo, o macho ativo e a fêmea passiva, machos e fêmeas como substâncias intactas; não seriam todos frutos de uma necessidade cultural de estabelecer normatividades correspondentes a projetos de poder. Macho/fêmea , ativo e passivo , ligados aos pressupostos das hierarquias de gênero e da heterossexualidade compulsória , e o individualismo e competição ligado as concepções de humanidade moderno-burguesa.

        Mesmo na idéia das gametas como categoria universal classificatória não se pode verificar na prática a sua universalidade, a bióloga não chega a ser tão rebelde para questionar a categoria neutra, mas podemos dizer que há nestas classificações certa busca classificatória, binária e intacta já a partir da busca de um conceito universalizante de macho e fêmea que enquadrasse todos os seres viventes. Porem como há espécies que não se verifica o padrão de tamanho de gametas , outras que não tem Y , outras que não tem isso ou aquilo, demonstra-se novamente a não rigidez da categorias de sexo denunciadas por Butler e Anne-Fausto .Os seres vivos provavelmente se reproduziriam , e evoluíram sem nosso esquema classificatório, ele serve maiormente para nós , é uma forma de ordenamento do mundo , “uma visão de natureza” .Não estamos dizendo que as gametas não existem , ou que elas poderiam ser chamadas de outras formas .Deste modo , o que se questiona é uma separação estanque de natureza e cultura , não que a natureza seja apenas uma construção , ela é apenas um pólo da relação ,o que é construído de modo político é a separação entre natureza e cultura/política/sociedade .Deste modo , as classificações e conceitos não estão no plano metafísico da verdade absoluta ou da coisa em si ,levando em conta que a própria obsessão epistemológica de uma ciência de categorias hiperneutras carrega um presunção de poder , de domínio dos sábios .

Deste modo, a posição de Roughgarden tem esta função de revelar o outro também em uma possibilidade de posição política: uma macho/ativo, uma fêmea/passiva etc., etc. poderiam ser facilmente localizados em contextos de poder a serviço das assimetrias de gênero e da exclusão de sexualidades dissidentes. O “sexo” dos homens e o sexo dos animais se transportam mutuamente com a finalidade de se produzir legitimidades assentadas em uma natureza intacta.

           Como pode ser observado este artigo centra-se nas explicações hermenêuticas, de disputa de discursos filiando-se a Foucault. A tese estruturalista não é totalmente explicativa da realidade , no entanto, começamos a conversa pontuando que os conservadores buscam suas legitimidades em uma visão de natureza heterossexual , e apóiam na idéia da família e da reprodução ,sendo assim a analise de Rubyn (Lévi-Strauss) e Witting se tornaram interessantes.Ou seja , Deus não fez “Adão e Eva” nem tão povo “Adão e Ivo” , muito mesmo colocou as animais aos pares na arca de Noé , a idéia de par natural e intacto legítimo talvez esconda assimetrias e exclusões.Por fim , apenas a título de exemplo cito o trabalho de Bruce Bagehmil, “Biological Exuberance – Animal Homosexuality and Natural Diversity”, que cataloga comportamentos homossexuais entre as espécies e traz a discussão da questão do prazer como imperativo para o sexo para além do impulso reprodutivo.[4]

 

                       Visões de natureza, visões da política.

             A análise social quando interessada nas visões acerca do “mundo natural” não se preocupa se tais visões estão de acordo ou não com os paradigmas aceitos contemporâneamente na biologia, mas está obviamente preocupada nas concepções e representações de natureza presente nas diferentes abordagens, bem como suas possíveis conexões com projetos de poder, pois como já abordado anteriormente neste trabalho existe em algumas elaborações teóricas da biologia uma correlação entre natureza e política.

             Escolhemos Kropotkin, em a “a ajuda mútua,um fator de evolução”, pois ele permite uma outra abordagem acerca dos pressupostos teóricos da “teoria da seleção social” e do “gene genial” de RoughGarden , pois as teses centrais de ambos são muito similares e negam uma concepção de natureza como sendo o reino do egoísmo e da competição .Poderíamos dizer que ambos os autores possuem uma visão positiva da natureza , e ambos os projetos políticos são progressistas , no sentido que as duas visões de natureza tendem para uma relação dos seres como primordialmente solidária , em contraposição a visões que estabelecem a primazia do mais forte .

            Há uma distinção em Kropotkin entre “natureza” e “seres vivos” que são capazes de sofrer.A natureza assim definida é aquela dos fenômenos climáticos, geológicos, ou seja, aquilo que é incontrolável, que ameaça a vida de todos os seres viventes, inclusive nós humanos. Um mundo não sensível que constantemente ameaça o mundo dos seres sensíveis , sendo que a partir de tal distinção podemos ver no autor um certo eco do Romantismo , em especial de Rousseau , onde todos os seres viventes estão em mesmo plano de sofrimento estabelecendo uns com os outros contextos de piedade, tal como exposto por este filósofo na “origem da desigualdade entre os homens”.

            Combate o Darwinismo social de seu tempo que afirmava políticamente não só a sobrevivência como também a preponderância do mais apto, se voltando para o mundo natural e questionado quem seria este ser mais apto? O argumento que percorre seu texto é de que o mais apto é o animal solidário. Os predadores solitários , por sua vez , são os mais vulneráveis na cadeia evolutiva , por outro lado , a ajuda mútua ,em bandos e em manadas que vão para além do trato parental permite vantagens na questão da sobrevivência da espécie.O argumento de Kropotkin quanto à definição do mais apto é o argumento da sociabilidade solidária. A ajuda mútua acontece entre espécies e interespécies, e é um tipo de solidarismo semelhante ao conceito de piedade Rousseniano[5]·. O conceito de instinto , deste modo , tem um significado diverso do corrente para Kropotkin , pois o instinto de sobrevivência se organiza em torno de uma ajuda mútua , da solidariedade .

          Como homem de seu tempo o autor também pressupunha uma evolução cultural, no entanto tanto Morgan quanto Kropotkin acreditavam que a suposta ordem evolutiva, que era concebida nos esquemas teóricos evolucionistas como indo de uma horda primitiva igualitária para a estratificação social, não era o caminho ideal para a humanidade. Para Kropotkin a solidariedade , traço característico dos seres vivos , é profundamente abalada entre os homens como o advento do capitalismo .Mas o capitalismo é visto pelo autor como algo que está em vias de extinção , afinal para ele o capitalismo equivale aos grandes predadores , animais que levam desvantagem evolutiva justamente por sua solidão e egoísmo , e sendo um erro da natureza tende a desaparecer.O percurso evolutivo de Kropotkin começa com a ordem primitiva igualitária, vai progressivamente em direção a estratificação, desviasse enormemente do caminho evolutivo natural da solidariedade com o capitalismo ,porem terminará na ordem maiormente solidária que é a anarquista.

         A família é uma organização tardia neste esquema linear proposto pot Kropotkin, pois é o espaço do egoísmo, da defesa de sua própria prole, ou seja, ela é anti-solidária por definição, sendo que a monogamia é uma fonte de insolidariedade. E é por isso que a solidariedade no mundo natural de Kropotkin necessita ser vista como uma relação intra e interespécie que vai para além do trato parental.Tal concepção de Kropotkin da família está muito ligado ao projeto de amor livre e libertação sexual anarquista.

            As barreiras entre humanos (sexo, raça, étnica, etc.) , segundo Kropotkin, são barreiras artificiais erigidas com a finalidade de minar a solidariedade entre os homens, barreiras estas asseguradas pelo Estado burguês. A solidariedade porem se esconde nas mais diversas associações entre os homens , de vizinhança , de amizade , até mesmos nas associações de ciclistas.Nestes espaços há a valorização da pequena política cotidiana, da associação , da solidariedade entre os homens , em detrimento da grande política do Estado , assim é necessário destruir o Estado por esta micro-político , divergindo do projeto marxista de tomada do Estado .

             Por fim , podemos concluir que em século e pouco depois uma “biológa” herética traz a mesma tese com conceitos novos tais como o “gene genial” em contraposição ao “gene egoísta” e a “seleção social” ao invés de uma “seleção sexual”, lembrando que nada é mais eficaz no processo evolutivo do que a cooperação, criticando duramente as teorias que fundamentam a evolução na competição, no individualismo e no egoísmo. Novamente podemos dizer que a posição ambivalente de Roughgardem , política e científica , denuncia o caráter político das teses que ela se opõem , assim como Kropotkin denunciava as teses do Darwinismo social que marcaram seu tempo .Afinal nada é mais egoísta , competitivo e individualista que o ideário liberal burguês.

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[1] Carol J. Adams, Josephine Donovan. Animal and women :feminist theorical explotations.Duke University Press, 1999.

** Em inglês, drunk as a dog (bêbado como um cachorro). (N.T.)

[2] Química cerebral estimula monogamia (Folha de São Paulo, 25 de fevereiro de 1998);

A monogamia entre animais (Folha de São Paulo, 27 de junho de 1999);

Gene favorece monogamia entre roedores (O Estado de São Paulo, 19 de agosto de 1999);

Gene pode explicar diferenças entre os sexos (O Globo, 1°de outubro de 1999);

Além de atraentes, homens altos produzem mais filhos (Folha de São Paulo, 13 de janeiro de 2000);

A violência nos genes (Folha de São Paulo, 12 de março de

2000).

[3] A origem da familia , da propriedade privada e do Estado.

[4] http://super.abril.com.br/ciencia/atracao-iguais-446781.shtml

[5] Rousseau, J.J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os Homens.